terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

The Wounded Kings - The Shadow Over Atlantis (2010)

Por vezes, discorrer em algumas linhas o que nos vai na alma sobre um determinado trabalho tem muito que se lhe diga devido ao facto de podermos estar perante uma grande surpresa, ser mais do mesmo sem momentos que nos cativem, sem mostras de originalidade ou de reinvenção/mistura das fórmulas de trabalho ou, por último, depararmo-nos perante algo que nos desilude ou que não gostamos. 
E este segundo álbum dos ingleses The Wounded Kings pode ser um bocadinho disso tudo para as diversas pessoas que se depararem com "The Shadow Over Atlantis", ou seja, para quem não conhece, certamente, não ficará desiludido, porque aqui pode verificar mais uma extensão do legado sabbathiano, com algumas nuances funeral doom e psicadélia (?), e terá mais um filão para explorar; para a maioria que já contactou com "Embrace Of The Narrow House", não existirão grandes surpresas, vão gostar e achar que é a primeira "bomba" de 2010 e apontarão aqui e ali elementos de destaque. Finalmente, também teremos os que irão dizer raios e coriscos, encontrando em todos os minutos deste registo motivos para apontar o dedo e lançar o vitupério.
Pois bem, este duo de Dartmoor parece que não deve ter ligado muito a uma possível reflexão deste género e o facto é que nos arremessam com mais 40 minutos de doom poderoso e cru, sem grandes contemplações, dividido por 6 temas (de entre os quais 2 pequenos instrumentais) que reforçam as linhas denunciadas no registo de estreia, de 2008, e dotam as suas músicas de uma carga ambiental cativante, conferindo-lhes uma dimensão extra que em muito abona o álbum. Os melhores exemplos para isso serão, talvez, os dois primeiros temas, "The Swirling Mist" e "Baptism Of Atlantis".
Neste novo ano/década que inicia, muita coisa se vai augurando, no que ao metal diz respeito, após um decénio extremamente variado e rico em produções musicais, mas o facto é que este "The Shadow Over Atlantis" acaba por ser a primeira grande referência no espectro do doom metal deste ano. (15/20)


sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Modern Funeral Art - Doom With A View (2009)

Os franceses Modern Funeral Art lançaram no início do ano passado o seu segundo registo em formato álbum. Inicialmente sem apoio de uma editora, vêem-se agora ligados à Apollon Records, garantindo-lhes maior visibilidade a este "Doom With A View".
O que temos neste trabalho é uma prazenteira conjugação de gothic e apontamentos doom, garantindo um registo mediano, sem grandes surpresas, rasgos de originalidade, onde o mar não se encontra muito crispado, mas que ao longo dos 40 minutos de duração não desagrada, havendo até bons apontamentos em temas como "Alexander", "Dante In The Dusty Woods" e o tema final "The Dance", onde a mistura dos estilos referidos soa melhor, face a boas linhas de guitarra e a uma secção rítmica que segura bem o tema e consegue dar-lhe a dimensão desejada. Um pequeno senão vai para a prestação vocal de Arnaud Spitz; esta, necessita de mais garra, porque perde-se, às vezes, no meio da massa sonora e o tom melódico explorado em demasia torna-se um pouco cansativo a partir do meio do álbum.
Apesar de não conter temas brilhantes, que os consiga catapultar para uma posição de grande destaque, os Modern Funeral Art que já contam com quase 12 anos de carreira, vêm confirmar que o underground francês continua bem vivo, de saúde, mostrando-se como um dos mais prolíficos da cena europeia ao longo da última década. 
E só nos resta continuar optimistas em relação a estes dois cenários, porque certamente teremos mais boas notícias em breve. (12/20)

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Starvation Ritual - The Gallow's Lament (2009)

Ao terceiro registo, o projecto Starvation Ritual acerca-se das ambiências que nos têm trazido a este espaço. Os seus anteriores trabalhos, "Ultimate Headfuck" e "Hunger Rites", movimentavam-se muito mais em torno do noise rock, sempre com um carácter minimalista. Esta característica, apesar da notória inflexão estilística, mantém-se bem viva; o trabalho de guitarra e bateria são elementares e ao longo dos quatro temas deste registo as variações rítmicas são praticamente nulas.
Este "The Gallow's Lament" é bastante mais negro, estruturado e compassado (quando possível) relativamente ao que se fez no passado, buscando aqui e ali uns tons mais drone ou funeral na sua base unicamente instrumental.
Apesar de os temas não soarem demasiado iguais entre si, é difícil destacar um ou outro, porque parece encaixarem numa sequência narrativa e que ao destacar uma peça, esta irá tornar-se uma ilha; ou seja, ouvir algum destes temas isoladamente irá soar sem nexo e extremamente doloroso para o ouvinte.
Sem fins comerciais, mantendo uma linha estritamente underground, onde as informações relativas ao projecto e do(s) seu(s) executante(s) são quase nulas, os Starvation Ritual mostram-se, com este trabalho, senhores das abordagens musicais que bem entendem explorar, apesar de necessitarem de alguns ajustes ao nível da composição, por forma a continuarem a soar a fresco. (10/20)

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Insanity Reigns Supreme - Occultus Insanus Damnatus (2009)

Bélgica. Os primeiros nomes que assomam na cabeça são Ancient Rites e Danse Macabre. Possivelmente, dentro em breve, poder-se-ão juntar estes Insanity Reigns Supreme. Mas perguntarão: porquê? Adoptando uma fórmula escapista, poderia remeter para as notas sobre o último de Raventale (e até colocava aqui o link, para facilitar) e o assunto ficaria resolvido de forma airosa.
No entanto, não é essa a política da casa (Templo, em rigor) e estes senhores merecem a devida deferência, porque já por aqui andam há 20 anos. Está certo que só lançaram 3 álbuns de originais, muito espaçados no tempo entre si, mas temos que admitir que todos eles têm uma boa qualidade, misturando em doses sábias o que de melhor se encontra no Death Metal de linhas mais melódicas e os andamentos mais sincopados do Doom.
E neste "Occultus Insanus Damnatus" o quinteto refina a sua fórmula e serve-nos, em 36 minutos, uma colecção de temas que irá fazer o fã do género carregar no botão do play uma boa série de vezes e, para quem ainda não descobriu este colectivo, ir em busca dos trabalhos anteriores.
Não faltam aqui as vocalizações femininas criando contraste aos growls, guitarras bem pesadas, secção rítmica trabalhada e bem presente a que podemos ainda acrescentar alguns momentos bem rápidos, mas sem blasts, entrecortados por paragens ou passagens mais lentas; exemplos disso mesmo são "Deus Serpentis", "Legion" ou mesmo o tema-título. Ao longo do álbum, para além da Intro "Summoning The Ancients", ainda é possível escutar mais dois interlúdios que servem, praticamente, de base à entrada no tema seguinte.
Num momento em que começam a despontar os primeiros lançamentos do novo ano, que se pretende tão bom como o que passou, ainda podemos bem olhar para o nosso passado recente e afirmar que a par da quantidade houve muita qualidade. E os Insanity Reigns Supreme encaixam bem nesta última. (15/20)


domingo, 17 de janeiro de 2010

Década e Meia Depois de Miguel Torga


Há exactamente 15 anos, desapareceu do mundo dos vivos uma das mais insignes personalidades do século XX português; Adolfo Correia Rocha de baptismo, Miguel Torga para o mundo.
O homem que cantou o mundo rural, as agruras da vida, as leis que aprisionam o homem e o seu instinto no sofrimento da tirania divina e terrestre.
Contista, dramaturgo, romancista, ensaísta e poeta, possuia uma linguagem escrita forte mas com um acentuado travo popular, forte, vigoroso e sóbrio.
O blog Temple Of Doom Metal revê na escrita de Torga muitas características que estão presentes neste estilo musical (a luta interna, a desgraça, o terror, a negação do divino, a morte) e, porque a vida não é só feita de centenários, pretende desta forma, singela e humilde, prestar-lhe uma sentida homenagem.
Desta forma, e utilizando as novas tecnologias ao dispôr, apresenta nesta homenagem uma pequena biografia do poeta e junta-lhe o poema "Orfeu Rebelde", incluido na obra com o mesmo nome, de 1958. Este mesmo texto pode, igualmente ser ouvido pela mão do projecto Orfeu Rebelde (Fernando Ribeiro e Pedro Paixão, dos Moonspell, e Rui Sidónio, Bizarra Locomotiva), no myspace do blog.




 Nota Biográfica


Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia Rocha, nasceu na freguesia de S. Martinho de Anta, município de Sabrosa (Trás-os-Montes).
Proveniente de uma família humilde, teve uma infância rural dura, que lhe deu a conhecer a realidade do campo, sem bucolismos, feita de árduo trabalho contínuo. Após uma breve passagem pelo seminário de Lamego, emigrou com 13 anos para o Brasil, onde durante cinco anos trabalhou na fazenda de um tio, em Minas Gerais, como capinador, apanhador de café, vaqueiro e caçador de cobras. De regresso a Portugal, em 1925, concluiu o ensino liceal . Em 1927 é fundada a revista Presença de que é um dos colaboradores desde o início. Em 1928 entra para a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e publica o seu primeiro livro, "Ansiedade", de poesia. É em Coimbra, onde vai também a exercer a sua profissão de médico e onde escreve a maioria dos seus livros.
Ligado, inicialmente, ao grupo da revista Presença, dele se desligou em 1930, fundando nesse mesmo ano, com Branquinho da Fonseca (outro dissidente), a Sinal, de que sairia apenas um número. Em 1936, lançou outra revista, Manifesto, também de duração breve.
A sua saída da Presença reflecte uma característica fundamental da sua personalidade literária, uma individualidade veemente e intransigente, que o manteve afastado, por toda a vida, de escolas literárias e mesmo do contacto com os círculos culturais do meio português. A esta intensa consciência individual aliou-se, no entanto, uma profunda afirmação da sua pertença à natureza humana, com que se solidariza na oposição a todas as forças que oprimam a energia viva e a dignidade do homem, sejam elas as tiranias políticas ou o próprio Deus. Miguel Torga, tendo como homem a experiência dos sofrimentos da emigração e da vida rural, do contacto com as misérias e com a morte, tornou-se o poeta do mundo rural, das forças telúricas, ancestrais, que animam o instinto humano na sua luta dramática contra as leis que o aprisionam. Nessa revolta consiste a missão do poeta, que se afirma tanto na violência com que acusa a tirania divina e terrestre, como na ternura franciscana que estende, de forma vibrante, a todas as criaturas no seu sofrimento. Mas essa revolta, por outro lado, não corresponde a uma arreligiosidade ou recusa da transcendência.
A sua obra, recheada de simbologia bíblica, encontra-se, antes, imersa num sentido divino que transfigura a natureza e dignifica o homem no seu desafio ou no seu desprezo face ao divino. A ligação à terra, à região natal, a Portugal, à própria Península Ibérica e às suas gentes, é outra constante dos textos do autor. Ela justifica o profundo conhecimento que Torga procurou ter de Portugal e de Espanha, unidos no conceito de uma Ibéria comum, pela rudeza e pobreza dos seus meios naturais, pelo movimento de expansão e opressões da história, e por certas características humanas definidoras da sua personalidade. A intervenção cívica de Miguel Torga, na oposição ao Estado Novo e na denúncia dos crimes da guerra civil espanhola e de Franco, valeu-lhe a apreensão de algumas das suas obras pela censura e, mesmo, a prisão pela polícia política portuguesa.
Contista exímio, romancista, ensaísta, dramaturgo, autor de mais de 50 obras publicadas desde os 21 anos, estreou-se em 1928 com o volume de poesia Ansiedade. Também em poesia, publicou, entre outras obras, Rampa (1930), O Outro Livro de Job (1936), Lamentação (1943), Nihil Sibi (1948), Cântico do Homem (1950), Alguns Poemas Ibéricos (1952), Penas do Purgatório (1954) e Orfeu Rebelde (1958). Na ficção em prosa, escreveu Pão Ázimo (1931), Criação do Mundo. Os Dois Primeiros Dias (1937, obra de fundo autobiográfico, continuada em O Terceiro Dia da Criação do Mundo, 1938, O Quarto Dia da Criação do Mundo, 1939, O Quinto Dia da Criação do Mundo, 1974, e O Sexto Dia da Criação do Mundo, 1981), Bichos (1940), Contos da Montanha (1941), O Senhor Ventura (1943, romance), Novos Contos da Montanha (1944), Vindima (1945) e Fogo Preso (1976).
É ainda autor de peças de teatro (Terra Firme e Mar, 1941; O Paraíso, 1949; e Sinfonia, poema dramático, 1947) de volumes de impressões de viagens (Portugal, 1950; Traço de União, 1955) e de um Diário em dezasseis volumes, publicado entre 1941 e 1994. Notável pela sua técnica narrativa no conto, pela expressividade da sua linguagem, frequentemente de cunho popular, mas de uma força clássica, fruto de um trabalho intenso da palavra, conseguiu conferir aos seus textos um ritmo vigoroso e original, a que associa uma imagística extremamente sugestiva e viva.
Várias vezes premiado, nacional e internacionalmente, foram-lhe atribuídos, entre outros, o prémio Diário de Notícias (1969), o Prémio Internacional de Poesia (1977), o prémio Montaigne (1981), o prémio Camões (1989), logo na primeira edição, o Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores (1992) e o Prémio da Crítica, consagrando a sua obra (1993).
Morre em Coimbra a 17 de Janeiro de 1995 pelas 11 horas. A sua campa rasa, na sua terra natal de S. Martinho de Anta, tem uma torga plantada a seu lado, em honra ao poeta.


Ver mais em:




Orfeu Rebelde


Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como um possesso
Que na casca do tempo, a canivete,
Gravasse a fúria de cada momento;
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade no meu sofrimento.


Outros, felizes, sejam rouxinóis...
Eu ergo a voz assim, num desafio:
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que há gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura.


Bicho institivo que adivinha a morte
No corpo dum poeta que a recusa,
Canto como quem usa
Os versos em legítima defesa.
Canto, sem perguntar à Musa
Se o canto é de terror ou de beleza.

in, Poesia Completa, 540





sábado, 16 de janeiro de 2010

Surtr - Surtr (2010)

Os Surtr são um duo francês, proveniente da cidade de Metz e apresentam-se ao mundo do Metal com este registo, uma demo auto-intitulada e que inclui 3 temas, sendo que dois deles são originais (e fazem parte de um conceito que a banda designa como "World Of Doom), e o terceiro é uma versão de "Electric Funeral", dos Black Sabbath.
Ao fim dos primeiros segundos, percebemos imediatamente em que território se movem e os nomes que nos assomam são os Saint Vitus, Pentagram, Reverend Bizarre e, os já mencionados, Black Sabbath. Linhas melódicas, clássicas, arrastadas qb que se entrecruzam com alguns momentos mais up-tempo, conferindo uma maior vitalidade a estes temas. "Part I", revela-se-nos como uma composição essencialmente instrumental, onde a voz de Jeff surge esporadicamente, dando maior ênfase ao seu trabalho de guitarra e de bateria de Régis. Por sua vez, "Part V" vai beber à escola sabathiana e ao estilo de Iommi, exclusivamente. Coincidência ou não, acaba por ser o tema que se destaca durante a audição.
Por fim, resta-nos a cover de "Electric Funeral", tocada pela enésima banda (de entre as músicas do quarteto de Birmingham, talvez seja das mais requisitadas), mas num registo competente e que demonstra, caso ainda houvesse algum tipo de dúvidas, a cartilha pela qual se orientam.
As demos são os cartões de apresentação para milhares de bandas, já o sabemos, onde mostram ao mundo as suas primeiras ideias e as suas influências e os Surtr não fugiram à regra. Agora, resta que continuem a desenvolver o trabalho que têm realizado desde o ano passado, quando fundaram a banda, e que nos surpreendam no próximo registo, porque existe uma boa margem de progressão pela frente. (13/20)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Rituals Of The Oak - Hour Of Judgement (2009)

Lá diz o adágio popular: "Até ao lavar dos cestos é vindima.", e aplica-se a este caso como uma luva. Esta boa surpresa chega-nos da Austrália e, para realçar ainda mais a situação, é o trabalho de estreia desta banda de Sydney.
O que temos aqui é Traditional Doom e todo o seu conteúdo encontra-se bem espelhado nas palavras de Michael Ballue, na sua review no site Hellridemusic.com: "The slow, mournful and altogether metallic riffing of the guitar, the restrained punctuation of the percussion, the rhythmic/riff bridge of the bass and over it all the emotive yet restrained vocals of Sabine Hamad bring the doom in a very purified form. All elements slot in perfectly with each other and as is often the case with quality this release is well served by what is not there as well as by what is."
Todo o conjunto apresenta uma sobriedade quase palpável, uma coesão extrema e uma simplicidade desarmante, a que se junta uma voz feminina que se enquadra na perfeição. Sim, a voz é de Sabine Hamad, que conta no seu curriculum a participação com os Kimaera e o seu projecto de Doom Metal Lycanthia. O seu timbre, bem seguro, adequa-se às malhas e ritmos, funcionando como mais um instrumento, dando mais força aos temas.
Os 5 temas que compõem "Hour Of Judgement" apresentam uma grande homogeneidade, em tons bem lentos, pesados q.b., mas que procuram sempre alguma dinâmica no seu interior, evitando, assim, um mais que provável entediamento durante a audição. Um bom exemplo é a faixa "Standing In The House Of Suffering", ou então "Childhood's End".
Os Rituals Of The Oak (belo nome, por sinal), com esta estreia, têm tudo para dar nas vistas e serem grandes, num ano recheado de grandes lançamentos no que ao Doom toca. Só o tempo o dirá, mas por aqui têm lugar cativo na playlist. (17/20)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Bosque - Passage (2009)

É certo e sabido que o Funeral Doom (ou downtempo, como também se aplica nos dias que correm) é um dos mais extremos sub-géneros do espectro do Metal. E ao ouvir o álbum de estreia de Bosque, chegamos à conclusão que esse extremo ganha mais dimensão, na receita que DM verte ao longo dos 4 temas que compõem este "Passage".
Ritmos ultra-lentos, guitarras cortantes, lancinantes que acompanham uma voz destroçada acompanham-nos ao longo de quase 45 minutos extremamente densos e carregados de emoções. Sim, a palavra "extremo" pode muito bem ser aplicada aqui vezes sem fim, que a sua repetida utilização não conseguirá reproduzir o que "Erasure" ou "Candles" nos transmitem durante repetidas audições. A inclusão de linhas atmosféricas, bem presentes neste último tema, para além de nos deixar respirar um pouco, e só isso, consegue criar na nossa mente uma paisagem desoladora, estéril, ou seja, reforça todo o conceito de desprendimento que rodeia este lançamento.
Nesta torrente abrasiva que nos tolda os sentidos, surge-nos no pensamento que os Skepticism, Esoteric e os Mourning Beloveth terão uma quota parte de "culpa" na composição dos sons que ora são difundidos, antecedidos por duas demos e dois splits.
No entanto, apesar de toda esta catarse bem conseguida, surgem momentos que se tornam um pouco monótonos não só pelo teor repetitivo, mas também pela experiência extrema (lá está!) que se nos depara. São, pois, arestas que podem ser limadas, mas que não tolhem o resultado final de mais um projecto nacional. (13/20)

Raventale - Mortal Aspirations (2009)

Após ouvir este trabalho, interroguei-me se faria sentido escrever algumas linhas sobre ele; primeiro, porque vem no seguimento de trabalhos anteriores na linha de Black/Pagan Metal e, segundo, pelo anúncio de este ser uma viragem para sons mais melancólicos e atmosféricos, na linha do Black/Doom.
Pois bem, após os primeiros segundos de "The Fall Of The Mortal Aspirations", que poderiam ter sido escritos por Arjen Lucassen, deparámo-nos com uma descarga que de Black somente nos resta a voz de Athamas, dos Deferum Sacrum, enquanto que a parte instrumental recorre bastante a andamentos mais relacionados com o Doom, de facto, mas sempre enquadrados numa variedade estilística que irá fazer torcer o nariz aos fãs mais extremados de ambas as facções.
Aqui, Astaroth, o senhor por detrás dos Raventale, funde com muita clarividência e qualidade momentos goth/doom/black/death/thrash, mantendo os níveis de entusiasmo, durante a audição, bastante altos.
Quatro dos nove temas que compõem este "Mortal Aspirations" são interlúdios, curtos em relação aos outros temas; de entre estes, destaque para "Escape To The Stars" que espelha muito bem a diversidade que o álbum contém.
Mais uma vez, chamamos a atenção para o ano que agora finda, que se encontra bem recheado de bons trabalhos vindos do Leste da Europa (Rússia e Ucrânia, por exemplo). Neste caso concreto, com carimbo da Solitude Productions.
Ah, e resolvi deixar aqui estas linhas, porque gostei do desafio. (14/20)

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Boas Festas 2009

Imbuídos pelo espírito da quadra que agora se atravessa, o Temple Of Doom Metal vem desejar a todos os votos de um bom Natal e um excelente ano de 2010, preferencialmente com muito metal à mistura.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Sesta Marconi - Where The Devil Dances (2009)

Os italianos Sesta Marconi já por cá andam há 10 anos, mas só agora é que lançam o seu álbum de estreia; no entanto, este foi precedido, em 2008, pelo EP "Ritual Kamasutra Kitsch", que teve um razoável acolhimento no seio da crítica. Neste mesmo EP, encontram-se dois temas incluídos em "Where The Devil Dances", "Skeletons Party" e "LSWD", com ligeiras alterações.
Com o nome da banda e com os títulos enunciados, possivelmente, será um pouco difícil perceber em que domínios se movem, mas se indicarmos os Black Sabbath, Cathedral, St. Vitus já percepcionamos a base musical desta banda, à qual se pode acrescentar umas pitadas de Kyuss e Electric Wizard (na senda do stoner e psicadélia). Ora bem, isto tudo mexido deu um debut cheio de malhas cativantes, com um som bem pesado e homogéneo ao qual se junta a voz melódica de Sérgio (remetendo para uns Candlemass e Pentagram), revelando um trabalho cheio de coisas boas, que os fãs do género vão gostar de explorar, durante uns tempos. No entanto, o bom pode não ser sinónimo de interessante e, neste caso concreto, ao fim do primeiro terço do álbum as coisas começam a tornar-se previsíveis, usando fórmulas há muito descobertas e erosionadas pelo uso. Apesar disso, nem tudo é cinzento para os lados de Roma, pois o potencial está lá, falta só que algumas ideias sejam bem buriladas e explanadas nos próximos lançamentos, que cá estaremos para os ouvir. (12/20)

domingo, 13 de dezembro de 2009

The 11th Hour - Burden Of Grief (2009)

Trabalho de estreia; trabalho conceptual. Ed Warby, referência dos Hail Of Bullets, entre outros, resolveu arregaçar as mangas, mais uma vez, e pôs cá fora este "Burden Of Grief", um excelente álbum de Doom na sua linha mais tradicional digamos assim, visto que são bem patentes as influências de Candlemass e The Gates Of Slumber, por exemplo, polvilhado com uns toques Death, cortesia de Rogga Johansson (Gorefest, Edge Of Sanity, entre outros) que emprestou o seu vozeirão à meia dúzia de temas que aqui se encontram registados.
Desde os primeiros segundos de "One Last Smoke" que nos deparamos com um trabalho bem pesado, poderoso, simples, mas cheio de boas malhas que se imiscuem no meio de uma secção rítmica, também ela simples, com o fiel propósito de não desviar as atenções do que aqui realmente interessa: a música, directa e perturbadora.
Como havíamos referido, este é um disco conceptual: um indivíduo que tem cancro nos pulmões e encontra-se em fase terminal e nas suas últimas horas efectua um exercício de auto-reflexão sobre a sua vida. A morte, o sofrimento, a desolação, tudo isto encontra-se bem entrelaçado constituindo, desta forma, um registo denso e que deixa marcas em quem o ouve.
Apesar de ensombrado por outros lançamentos no espectro do Doom, casos dos YOB, Candlemass, The Gates Of Slumber, Griftegärd, só para mencionar alguns, este "Burden Of Grief" não deixa os seus créditos por mãos alheias e poderia, em outras circunstâncias, ser um trabalho de referência para 2009. (15/20)

sábado, 12 de dezembro de 2009

Swallow The Sun - New Moon (2009)

Tenho que confessar que estes Swallow The Sun nunca foram a minha cup of tea; não sei dizer bem porquê, mas havia sempre algo que me causava um pouco de confusão: ou eram as melodias que não entravam, ou eram as vozes que não pareciam encaixar em alguns pontos das músicas. O certo é que ainda continuo a dar chances atrás de chances, na esperança de que lancem um trabalho que me faça dizer "Aqui está, a master piece!".
Enquanto isso não acontece, temos entre mãos mais um registo dentro do que estes finlandeses nos têm vindo a habituar, um Doom/Death bem lavrado, com uma toada bem melancólica, com as notas de escuridão, sofrimento e desespero em bom plano a que se podem juntar umas vozes a cair para o Black Metal e um ou outro blastbeat, mas que não chegam ou não conseguem tornar esta novidade em algo aliciante para quem já conhece o trabalho da banda e vê em "The Morning Never Came" ou "Ghosts Of Loss" ainda os trabalhos de referência.
A excepção irá, talvez, para o tema que abre o álbum, "These Woods Breathe Evil", título bem conseguido, com boas malhas num ritmo que fica ali entre o down e o mid-tempo e que nos fazem antever uma hora bem passada. Mas, afinal, a coisa não segue esse rumo... Depois da Lua Nova, o caminho é para a Lua Cheia, assim se espera. (13/20)


sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Doom10+ - Dezembro

O Temple Of Doom Metal inicia, este mês, uma rúbrica - chamemos-lhe assim -, que irá permitir conhecer e dar a conhecer  alguns dos álbuns de eleição, dentro deste género, de alguns convidados que se encontram ligados à cena metálica nacional. Ao mesmo tempo, na senda de um certo dinamismo que se pretende neste espaço, esta constituirá uma forma do blog abrir-se à participação de mais pessoas, através destes contributos e dos comentários/discussões que daí surjam.
Com periodicidade mensal, uma personalidade irá elencar o seu top 10+ em relação a trabalhos de Doom e derivados e discorrer, em algumas linhas, sobre os seus 3 preferidos.
Poderá ser do gosto de novatos e veteranos.

Tem honras de abertura desta novel demanda o Paulo Figueiredo, administrador do blog de metal Event Horizon (http://www.eventhorizon-space.blogspot.com/)!!


1. My Dying Bride - «Turn Loose the Swans» (1993)




Falar do «Turn Loose the Swans» é falar no meu absoluto álbum preferido. Um disco que funciona como uma ponte entre o Doom-Metal clássico de uns Candlemass, Saint Vitus e Cathedral e o Doom Death-Metal que o triunvirato britânico da Peaceville formado por Paradise Lost, Anathema e My Dying Bride inventou. «Turn Loose the Swans» é um disco absolutamente perfeito que reúne um artwork soberbo, música sublime condimentada com um instrumento (violino) até aí nunca experimentado no Doom-Metal, conteúdo lírico a versar sobre morte, amor, sexo e religião, autoria do vocalista Aaron Stainthorpe, com uma profundidade poética também até aí nunca utilizada no Metal. «Turn Loose the Swans» é sinónimo de negro romantismo, raiva e absoluta depressão, sentimentos presentes em temas como «The Crown Of Sympathy», «The Snow In My Hand» e «Black God». E não é isto precisamente que o Doom-Metal representa?

2. Candlemass - «Epicus Doomicus Metallicus» (1986)



Proferir os Candlemass como os pais do Doom Metal pode ser uma decisão tão acertada quanto enganadora. Isto porque os suecos estão directamente ligados ao legado deixado pelos Black sabbath, Trouble ou Saint Vitus e por outro lado talvez não tenham sido tão bem sucedidos como os britânicos My Dying Bride, que por sua vez derivam o seu Doom para paisagens Death Metal e Góticas. Esta discussão daria "pano para mangas", mas aqui pretende-se falar deste colosso de música depressiva que é «Epicus Doomicus Metallicus». Os acordes inicias de «Solitude» são para quem os ouve inesquecíveis à primeira e os Candlemass apresentam-se ao mundo da melhor maneira possível com um hino que eu gostaria de ouvir no meu último suspiro de vida. Johan Langquist é ainda aqui o vocalista dos Candlemass, e apenas precisou de um único disco para deixar a sua marca indelével no Heavy-Metal. Principalmente em «Under The Oak» uma música soberba e em «A Sorcerer's Pledge» cujo assombroso final atira-nos para um vazio inqualificável que nos faz repetir a experiência fantástica que é «Epicus Doomicus Metallicus».

3. Black Sabbath - «Black Sabbath» (1970)


Previamente denominados por Earth, Ozzy Osbourne, Tommi Iommi, Geezer Butler e Bill Ward lançaram-se aos estúdios Trident em Londres e durante três dias gravaram e editaram por apenas 600 libras o seu homónimo e primeiro trabalho. Quando lançado, este ocupou rapidamente os primeiros lugares da tabela de vendas britânica ao lado de ilustres como Beatles, The Who ou Simon And Garfunkel. Nesta altura poucos utlilizavam as guitarras como eles, apenas Jimmy Hendrix, Led Zeppelin e poucos mais. O visual negro, as letras obscuras e a famosa cruz invertida do booklet do disco trouxeram algum protagonismo aos Black Sabbath exagerado pela editora da altura, a Vertigo, na tentativa de publicitar o quarteto da forma que mais convinha. Mas a música até falava mais alto...
A mística introdução com «Black Sabbath», os seus sinos e tempestade com Ozzy a proclamar "What is this that stands before me?" tornou-se numa frase marcante assinalando como que o inicio do Heavy-Metal. A diabólica passagem de «N.I.B»: "My name is Lucifer, please take my hand" tornou-se um va-de-retro para os puristas da altura que bradavam aos sete ventos que este estilo de música assumia uma postura satânica... de facto até era mais ou menos verdade! A apetência de Bill Ward para a prática de artes obscuras e o fascínio pelo "lado negro" ajudaram ao rótulo de satânicos para os Black Sabbath. Mais do que um excelente disco (ainda hoje!) Black Sabbath marca o inicio do Heavy-Metal, posteriormente do Doom-Metal e foi o primeiro de uma carreira plena de sucesso até ao abandono de Ozzy Osbourne.

4. Paradise Lost - «Gothic» (1990)
5. Cathedral - «Forest of Equilibrium» (1991)
6. Dolorian - «When All The Laughter Has Gone» (1999)
7. Saint Vitus - «Born Too Late» (1986)
8. Morgion - «Solinari» (1999)
9. Neurosis - «A Sun That Never Sets» (2001)
10. Mourning Beloveth - «A Disease For The Ages» (2006)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Abstract Spirit - Tragedy And Weeds (2009)

A Rússia está a tornar-se um caso de sério relativamente ao número e qualidade de bandas que tem dado a conhecer nestes últimos anos. Neste mesmo espaço. já pudemos dissertar um pouco sobre alguns trabalhos que foram lançados durante este ano e, no cômputo geral, o panorama é bem satisfatório.
E parece que irá continuar, depois de algumas audições a este "Tragedy And Weeds", o segundo longa-duração dos moscovitas Abstract Spirit. Vinculados à Solitude Productions, desde o lançamento de estreia, anteve-se, logo, algo bem negro e, na realidade, deparamo-nos com um colosso de Funeral Doom ao longo de 6 longos temas (em que a média ultrapassa os 11 minutos), bem pesados, lentos, com guturais bem encaixados na estrutura dos temas, que nunca se tornam maçadores dada a variedade (dentro do possível) implementada por este trio. A inclusão de teclados, em alguns momentos, enfatiza ainda mais a atmosfera que se quer criar com este álbum. Os títulos dos temas que compõem este registo espelham bem o ambiente desolador que se pode contemplar durante este manifesto de negritude, que afinal perfazem a essência deste sub-género.
Não sendo um portento de criatividade, este lançamento que nos chegou da fria Moscovo para as nossas frias noites de Outono e Inverno até se revela uma boa surpresa a que podemos/devemos (riscar o que menos convier) escutar enquanto lá fora a chuva cai em fortes bátegas. (14/20)