Este blog tem como único propósito a divulgação de um sub-género musical dentro da esfera do metal: o doom metal e as suas mais diversificadas vertentes.
Todos os links aqui apresentados remetem para outros "sítios" onde poderão encontrar mais informações e ouvir músicas das bandas que aqui vamos dando a conhecer.
Se gostarem do que ouvem, apoiem as bandas, comprem os seus artigos.
INTERROGATIO >
SUUM CUIQUE TRIBUERE
Banner 468x140px
Copia e cola este banner
Banner 250x200px
Copia e cola este banner
Os açorianos In Peccatvm continuam a ser um dos bastiões do metal nacional insular e um modelo de perseverança, crença e paixão pelo metal, que nos deverá fazer pensar muitas vezes que, se calhar, cuspimos no prato em que comemos. E porquê? Perseverança, crença e paixão, como foi escrito; termos e, sobretudo, sentimentos que muitos "velhos do Restelo" parecem ter esquecido perante as "facilidades" que ora se vão vendo por estes lados do continente. A esta banda, poderíamos juntar os A Dream Of Poe, Morbid Death e Requiem Laus, que não deslustrarão em nada o exposto. Ponto.
O último registo, se não contarmos com a reedição da demo de 2000 "Just Like Tears..." em 2008, data já de 2002 e foi o EP "Antília", baseado no conceito das lendas das Sete Cidades. No entanto, a longa espera valeu bem a pena, porque os sete temas que compõem este novo EP, também ele conceptual - desta feita sobre a erupção do Fogo que, em 1563, destruiu a parte central da ilha de S. Miguel -, revelam uma significativa maturação nas composições e na estrutura que deram a este trabalho. Desde o tema de abertura, "All I Am Is Fear (Prelude)", em que os sons do interior da terra, os sinos - um misto de dor e protecção/aviso -, passando pelos gritos dos micaelenses, até aos últimos sons de "So Shall Ye Wither (Outro)" que existe um excelente encadeamento neste acontecimento musicalizado e sentimos-nos, ao mesmo tempo, envolvidos pelas músicas e os excertos do texto que relata a tragédia, da autoria de Gaspar Frutuoso, "Saudades da Terra", do século XVI, que surgem nos temas centrais do registo, sob bases mais acústicas e atmosféricas, evidenciam que os In Peccatvm se encontram num grande momento e que MDLXIII é, até à data, o seu melhor registo em todas as suas valências, sempre dentro do espectro do Gothic/Doom Metal. Acabamos por ter , assim, reflectido um belo espelho desta tragédia sem que se abram os olhos. E quando as coisas são assim, só queremos saber qual será o próximo capítulo. (16/20)
Demo de estreia deste quarteto australiano, que pratica um Death/Doom Metal agradável, mas que faz logo lembrar uns Swallow The Sun (na fase "The Morning Never Came", essencialmente), Novembers Doom e Daylight Dies, mas principalmente os primeiros; por vezes, ao longo destes 3 temas, existe uma colagem demasiado evidente à banda finlandesa, o que até se desculpa visto ser o primeiro registo da banda, que poderá ofuscar a modelagem do seu som e personalidade.
No entanto, deparamo-nos com um conjunto de músicas bem estruturadas e pesadas qb, que incluem alguns momentos mais calmos que contrastam com as descargas de energia (veja-se "Futility" e "Jewels In The Sky"); esta dualidade confere aos temas algum dinamismo e acrescenta qualidade aos temas.
Apesar de não nos encontrarmos perante um registo cheio de inovações e originalidade, os Okera apresentam-se ao mundo de uma forma descomprometida, mas segura, sólida nas linhas em que se querem coser, mas que convém alinhavar melhor a discrição das influências, porque desta forma correm o risco de soarem a uma cópia e chegarem a um beco sem saída.
Última nota: esta Demo, encontra-se disponível para download no myspace da banda. (12/20)
Uma das características por que ficará conhecida a década que acaba de findar, no espectro do Metal, é a proliferação de projectos no regime de one man band. A isso, teremos de juntar que as novas tecnologias e a massificação das ferramentas de gravação e edição desses mesmos projectos em muito contribuiram para tal fenómeno.
E é sobre mais um desses solo projects que se discorrerá nas seguintes linhas
Os Persistence In Mourning chegam-nos de Oklahoma City e têm no seu mentor, A. Lippoldt, a sua face, aplicando aqui uma abordagem ao Funeral Doom, de forma genérica.
Apesar de já terem no seu curriculum meia dúzia de lançamentos, apenas no início do ano passado é que foi lançado este "The Undead Shall Rise", que transporta um cariz conceptual em torno dos zombies.
A par de guitarras bem abrasivas e agrestes, neste álbum temos ritmos bem lentos, funéreos e uma voz bem gutural, também. No entanto, fugindo, de certa forma, à cartilha mais ortodoxa por que se pauta este sub-género, encontramos alguns momentos e elementos que conferem uma valorização aos temas, nomeadamente a presença de um piano em "... And The Killing Began In Earnest" ou as teclas em "The Cabin" que conferem ao tema um ar mais taciturno e spooky, para além de um ou outro apontamento mais na esteira do Black Metal.
Apesar de, na generalidade, estarmos perante um trabalho válido, existe ainda alguma heterogeneidade no resultado final dos temas e a sua ordem de distribuição ao longo do disco; referimo-nos, mais concretamente, à sequência "Interlude I (She's Ashen)"/"The Earth, The Terrible Dark Silence"/"The New Begining (Ominous)", que cria um corte longo na sequência do álbum.
Contudo, os Persistence In Mourning ainda têm uma boa margem de progressão, a ver pela amostra, num sub-género que é bem conhecido pelas suas limitações.(12/20)
Na continuidade da rubrica iniciada em Dezembro de 2009, onde algumas personalidades do mundo do metal nacional emitem as suas escolhas sobre os trabalhos de Doom Metal que mais os marcaram ao longo do seu trajecto musical e não só, retomamos, com um ligeiro atraso é certo, essa recolha de escolhas.
Durante o mês de Janeiro, fomos bater à porta de Francisco Dias, vocalista e fundador dos doomsters Dawnrider, que no ano passado lançaram o mui aclamado "Two". Para além da listagem onde distingue os seus 10+, presenteou o Temple Of Doom Metal com os dez trabalhos mais relevantes da última década, bem como os que contribuíram para a criação do Doom Metal. É o que podemos chamar 3 em 1 e melhor início de ano para o Doom10+ seria muito difícil vaticinar.
1. TROUBLE "Psalm 9" (1984)
2. CANDLEMASS "Epicus Doomicus Metallicus" (1986)
3. IRON MAN "The Passage" (1994)
4. THE OBSESSED "Incarnate" (comp. - 1999)
5. SAINT VITUS "Die Healing" (1995)
6. ELECTRIC WIZARD "Come My Fanatics..." (1997)
7. WITCHFINDER GENERAL "Death Penalty" (1982)
8. DEATH SS "The Story 1977-84" (comp. - 1987)
9. PAGAN ALTAR "Pagan Altar" (demo - 1982 - reeditada duas vezes)
10. ASYLUM "The Earth Is The Insane Asylum Of The Universe" (demo - 1985)
DOOM10+ New Millenium
1. SPIRIT CARAVAN "The Last Embrace" (comp. - 2003)
2. REVEREND BIZARRE "In The Rectory" (2002)
3. CATHEDRAL "The Garden Of Unearthly Delights" (2005)
4. EARTHRIDE "Vampire Circus" (2005)
5. PLACE OF SKULLS "Nailed" (2002)
6. GRAND MAGUS "Monument" (2003)
7. SPIRITUS MORTIS "Spiritus Mortis" (2004)
8. IRON MAN "I Have Returned" (2009)
9. FORSAKEN "After The Fall" (2009)
10. PENTAGRAM "Sub Basement" (2001)
DOOM 10+ Proto-Doom
1. BLACK SABBATH "Master Of Reality" (1971)
2. PENTAGRAM "First Daze Here" (comp. - 2002)
3. BLUE CHEER "Outsideinside" (1968)
4. RANDY HOLDEN "Population II" (1969)
5. JERUSALEM "Jerusalem" (1972)
6. JOSEFUS "Dead Man" (1970)
7. BANG "Bang" (1971)
8. CZAR "Czar" (1970)
9. HIGH TIDE "Sea Shanties" (1969)
10. TIGER B. SMITH "Tiger Rock" (1972)
Como devem calcular, muita coisa boa ficou de fora especialmente nos 2 primeiros tops. Pelos primeiros lugares dos tops, podem reparar que alguns dos discos da minha vida passam por Black Sabbath, Pentagram e pelo Doom Metal mais tradicional produzido nas decadas de 80 e 90 em Maryland/DC. No entanto, há uma tendencia mais europeia no top do novo milénio e especialmente no top do proto-Doom. Agora vão à procura dos discos, relaxem, ouçam e sejam surpreendidos!
Por vezes, discorrer em algumas linhas o que nos vai na alma sobre um determinado trabalho tem muito que se lhe diga devido ao facto de podermos estar perante uma grande surpresa, ser mais do mesmo sem momentos que nos cativem, sem mostras de originalidade ou de reinvenção/mistura das fórmulas de trabalho ou, por último, depararmo-nos perante algo que nos desilude ou que não gostamos.
E este segundo álbum dos ingleses The Wounded Kings pode ser um bocadinho disso tudo para as diversas pessoas que se depararem com "The Shadow Over Atlantis", ou seja, para quem não conhece, certamente, não ficará desiludido, porque aqui pode verificar mais uma extensão do legado sabbathiano, com algumas nuances funeral doom e psicadélia (?), e terá mais um filão para explorar; para a maioria que já contactou com "Embrace Of The Narrow House", não existirão grandes surpresas, vão gostar e achar que é a primeira "bomba" de 2010 e apontarão aqui e ali elementos de destaque. Finalmente, também teremos os que irão dizer raios e coriscos, encontrando em todos os minutos deste registo motivos para apontar o dedo e lançar o vitupério.
Pois bem, este duo de Dartmoor parece que não deve ter ligado muito a uma possível reflexão deste género e o facto é que nos arremessam com mais 40 minutos de doom poderoso e cru, sem grandes contemplações, dividido por 6 temas (de entre os quais 2 pequenos instrumentais) que reforçam as linhas denunciadas no registo de estreia, de 2008, e dotam as suas músicas de uma carga ambiental cativante, conferindo-lhes uma dimensão extra que em muito abona o álbum. Os melhores exemplos para isso serão, talvez, os dois primeiros temas, "The Swirling Mist" e "Baptism Of Atlantis".
Neste novo ano/década que inicia, muita coisa se vai augurando, no que ao metal diz respeito, após um decénio extremamente variado e rico em produções musicais, mas o facto é que este "The Shadow Over Atlantis" acaba por ser a primeira grande referência no espectro do doom metal deste ano. (15/20)
Os franceses Modern Funeral Art lançaram no início do ano passado o seu segundo registo em formato álbum. Inicialmente sem apoio de uma editora, vêem-se agora ligados à Apollon Records, garantindo-lhes maior visibilidade a este "Doom With A View".
O que temos neste trabalho é uma prazenteira conjugação de gothic e apontamentos doom, garantindo um registo mediano, sem grandes surpresas, rasgos de originalidade, onde o mar não se encontra muito crispado, mas que ao longo dos 40 minutos de duração não desagrada, havendo até bons apontamentos em temas como "Alexander", "Dante In The Dusty Woods" e o tema final "The Dance", onde a mistura dos estilos referidos soa melhor, face a boas linhas de guitarra e a uma secção rítmica que segura bem o tema e consegue dar-lhe a dimensão desejada. Um pequeno senão vai para a prestação vocal de Arnaud Spitz; esta, necessita de mais garra, porque perde-se, às vezes, no meio da massa sonora e o tom melódico explorado em demasia torna-se um pouco cansativo a partir do meio do álbum.
Apesar de não conter temas brilhantes, que os consiga catapultar para uma posição de grande destaque, os Modern Funeral Art que já contam com quase 12 anos de carreira, vêm confirmar que o underground francês continua bem vivo, de saúde, mostrando-se como um dos mais prolíficos da cena europeia ao longo da última década.
E só nos resta continuar optimistas em relação a estes dois cenários, porque certamente teremos mais boas notícias em breve. (12/20)
Ao terceiro registo, o projecto Starvation Ritual acerca-se das ambiências que nos têm trazido a este espaço. Os seus anteriores trabalhos, "Ultimate Headfuck" e "Hunger Rites", movimentavam-se muito mais em torno do noise rock, sempre com um carácter minimalista. Esta característica, apesar da notória inflexão estilística, mantém-se bem viva; o trabalho de guitarra e bateria são elementares e ao longo dos quatro temas deste registo as variações rítmicas são praticamente nulas.
Este "The Gallow's Lament" é bastante mais negro, estruturado e compassado (quando possível) relativamente ao que se fez no passado, buscando aqui e ali uns tons mais drone ou funeral na sua base unicamente instrumental.
Apesar de os temas não soarem demasiado iguais entre si, é difícil destacar um ou outro, porque parece encaixarem numa sequência narrativa e que ao destacar uma peça, esta irá tornar-se uma ilha; ou seja, ouvir algum destes temas isoladamente irá soar sem nexo e extremamente doloroso para o ouvinte.
Sem fins comerciais, mantendo uma linha estritamente underground, onde as informações relativas ao projecto e do(s) seu(s) executante(s) são quase nulas, os Starvation Ritual mostram-se, com este trabalho, senhores das abordagens musicais que bem entendem explorar, apesar de necessitarem de alguns ajustes ao nível da composição, por forma a continuarem a soar a fresco. (10/20)
Bélgica. Os primeiros nomes que assomam na cabeça são Ancient Rites e Danse Macabre. Possivelmente, dentro em breve, poder-se-ão juntar estes Insanity Reigns Supreme. Mas perguntarão: porquê? Adoptando uma fórmula escapista, poderia remeter para as notas sobre o último de Raventale (e até colocava aqui o link, para facilitar) e o assunto ficaria resolvido de forma airosa.
No entanto, não é essa a política da casa (Templo, em rigor) e estes senhores merecem a devida deferência, porque já por aqui andam há 20 anos. Está certo que só lançaram 3 álbuns de originais, muito espaçados no tempo entre si, mas temos que admitir que todos eles têm uma boa qualidade, misturando em doses sábias o que de melhor se encontra no Death Metal de linhas mais melódicas e os andamentos mais sincopados do Doom.
E neste "Occultus Insanus Damnatus" o quinteto refina a sua fórmula e serve-nos, em 36 minutos, uma colecção de temas que irá fazer o fã do género carregar no botão do play uma boa série de vezes e, para quem ainda não descobriu este colectivo, ir em busca dos trabalhos anteriores.
Não faltam aqui as vocalizações femininas criando contraste aos growls, guitarras bem pesadas, secção rítmica trabalhada e bem presente a que podemos ainda acrescentar alguns momentos bem rápidos, mas sem blasts, entrecortados por paragens ou passagens mais lentas; exemplos disso mesmo são "Deus Serpentis", "Legion" ou mesmo o tema-título. Ao longo do álbum, para além da Intro "Summoning The Ancients", ainda é possível escutar mais dois interlúdios que servem, praticamente, de base à entrada no tema seguinte.
Num momento em que começam a despontar os primeiros lançamentos do novo ano, que se pretende tão bom como o que passou, ainda podemos bem olhar para o nosso passado recente e afirmar que a par da quantidade houve muita qualidade. E os Insanity Reigns Supreme encaixam bem nesta última. (15/20)
Há exactamente 15 anos, desapareceu do mundo dos vivos uma das mais insignes personalidades do século XX português; Adolfo Correia Rocha de baptismo, Miguel Torga para o mundo.
O homem que cantou o mundo rural, as agruras da vida, as leis que aprisionam o homem e o seu instinto no sofrimento da tirania divina e terrestre.
Contista, dramaturgo, romancista, ensaísta e poeta, possuia uma linguagem escrita forte mas com um acentuado travo popular, forte, vigoroso e sóbrio.
O blog Temple Of Doom Metal revê na escrita de Torga muitas características que estão presentes neste estilo musical (a luta interna, a desgraça, o terror, a negação do divino, a morte) e, porque a vida não é só feita de centenários, pretende desta forma, singela e humilde, prestar-lhe uma sentida homenagem.
Desta forma, e utilizando as novas tecnologias ao dispôr, apresenta nesta homenagem uma pequena biografia do poeta e junta-lhe o poema "Orfeu Rebelde", incluido na obra com o mesmo nome, de 1958. Este mesmo texto pode, igualmente ser ouvido pela mão do projecto Orfeu Rebelde (Fernando Ribeiro e Pedro Paixão, dos Moonspell, e Rui Sidónio, Bizarra Locomotiva), no myspace do blog.
Nota Biográfica
Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia Rocha, nasceu na freguesia de S. Martinho de Anta, município de Sabrosa (Trás-os-Montes).
Proveniente de uma família humilde, teve uma infância rural dura, que lhe deu a conhecer a realidade do campo, sem bucolismos, feita de árduo trabalho contínuo. Após uma breve passagem pelo seminário de Lamego, emigrou com 13 anos para o Brasil, onde durante cinco anos trabalhou na fazenda de um tio, em Minas Gerais, como capinador, apanhador de café, vaqueiro e caçador de cobras. De regresso a Portugal, em 1925, concluiu o ensino liceal . Em 1927 é fundada a revista Presença de que é um dos colaboradores desde o início. Em 1928 entra para a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e publica o seu primeiro livro, "Ansiedade", de poesia. É em Coimbra, onde vai também a exercer a sua profissão de médico e onde escreve a maioria dos seus livros.
Ligado, inicialmente, ao grupo da revista Presença, dele se desligou em 1930, fundando nesse mesmo ano, com Branquinho da Fonseca (outro dissidente), a Sinal, de que sairia apenas um número. Em 1936, lançou outra revista, Manifesto, também de duração breve.
A sua saída da Presença reflecte uma característica fundamental da sua personalidade literária, uma individualidade veemente e intransigente, que o manteve afastado, por toda a vida, de escolas literárias e mesmo do contacto com os círculos culturais do meio português. A esta intensa consciência individual aliou-se, no entanto, uma profunda afirmação da sua pertença à natureza humana, com que se solidariza na oposição a todas as forças que oprimam a energia viva e a dignidade do homem, sejam elas as tiranias políticas ou o próprio Deus. Miguel Torga, tendo como homem a experiência dos sofrimentos da emigração e da vida rural, do contacto com as misérias e com a morte, tornou-se o poeta do mundo rural, das forças telúricas, ancestrais, que animam o instinto humano na sua luta dramática contra as leis que o aprisionam. Nessa revolta consiste a missão do poeta, que se afirma tanto na violência com que acusa a tirania divina e terrestre, como na ternura franciscana que estende, de forma vibrante, a todas as criaturas no seu sofrimento. Mas essa revolta, por outro lado, não corresponde a uma arreligiosidade ou recusa da transcendência.
A sua obra, recheada de simbologia bíblica, encontra-se, antes, imersa num sentido divino que transfigura a natureza e dignifica o homem no seu desafio ou no seu desprezo face ao divino. A ligação à terra, à região natal, a Portugal, à própria Península Ibérica e às suas gentes, é outra constante dos textos do autor. Ela justifica o profundo conhecimento que Torga procurou ter de Portugal e de Espanha, unidos no conceito de uma Ibéria comum, pela rudeza e pobreza dos seus meios naturais, pelo movimento de expansão e opressões da história, e por certas características humanas definidoras da sua personalidade. A intervenção cívica de Miguel Torga, na oposição ao Estado Novo e na denúncia dos crimes da guerra civil espanhola e de Franco, valeu-lhe a apreensão de algumas das suas obras pela censura e, mesmo, a prisão pela polícia política portuguesa.
Contista exímio, romancista, ensaísta, dramaturgo, autor de mais de 50 obras publicadas desde os 21 anos, estreou-se em 1928 com o volume de poesia Ansiedade. Também em poesia, publicou, entre outras obras, Rampa (1930), O Outro Livro de Job (1936), Lamentação (1943), Nihil Sibi (1948), Cântico do Homem (1950), Alguns Poemas Ibéricos (1952), Penas do Purgatório (1954) e Orfeu Rebelde (1958). Na ficção em prosa, escreveu Pão Ázimo (1931), Criação do Mundo. Os Dois Primeiros Dias (1937, obra de fundo autobiográfico, continuada em O Terceiro Dia da Criação do Mundo, 1938, O Quarto Dia da Criação do Mundo, 1939, O Quinto Dia da Criação do Mundo, 1974, e O Sexto Dia da Criação do Mundo, 1981), Bichos (1940), Contos da Montanha (1941), O Senhor Ventura (1943, romance), Novos Contos da Montanha (1944), Vindima (1945) e Fogo Preso (1976).
É ainda autor de peças de teatro (Terra Firme e Mar, 1941; O Paraíso, 1949; e Sinfonia, poema dramático, 1947) de volumes de impressões de viagens (Portugal, 1950; Traço de União, 1955) e de um Diário em dezasseis volumes, publicado entre 1941 e 1994. Notável pela sua técnica narrativa no conto, pela expressividade da sua linguagem, frequentemente de cunho popular, mas de uma força clássica, fruto de um trabalho intenso da palavra, conseguiu conferir aos seus textos um ritmo vigoroso e original, a que associa uma imagística extremamente sugestiva e viva.
Várias vezes premiado, nacional e internacionalmente, foram-lhe atribuídos, entre outros, o prémio Diário de Notícias (1969), o Prémio Internacional de Poesia (1977), o prémio Montaigne (1981), o prémio Camões (1989), logo na primeira edição, o Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores (1992) e o Prémio da Crítica, consagrando a sua obra (1993).
Morre em Coimbra a 17 de Janeiro de 1995 pelas 11 horas. A sua campa rasa, na sua terra natal de S. Martinho de Anta, tem uma torga plantada a seu lado, em honra ao poeta.
Os Surtr são um duo francês, proveniente da cidade de Metz e apresentam-se ao mundo do Metal com este registo, uma demo auto-intitulada e que inclui 3 temas, sendo que dois deles são originais (e fazem parte de um conceito que a banda designa como "World Of Doom), e o terceiro é uma versão de "Electric Funeral", dos Black Sabbath.
Ao fim dos primeiros segundos, percebemos imediatamente em que território se movem e os nomes que nos assomam são os Saint Vitus, Pentagram, Reverend Bizarre e, os já mencionados, Black Sabbath. Linhas melódicas, clássicas, arrastadas qb que se entrecruzam com alguns momentos mais up-tempo, conferindo uma maior vitalidade a estes temas. "Part I", revela-se-nos como uma composição essencialmente instrumental, onde a voz de Jeff surge esporadicamente, dando maior ênfase ao seu trabalho de guitarra e de bateria de Régis. Por sua vez, "Part V" vai beber à escola sabathiana e ao estilo de Iommi, exclusivamente. Coincidência ou não, acaba por ser o tema que se destaca durante a audição.
Por fim, resta-nos a cover de "Electric Funeral", tocada pela enésima banda (de entre as músicas do quarteto de Birmingham, talvez seja das mais requisitadas), mas num registo competente e que demonstra, caso ainda houvesse algum tipo de dúvidas, a cartilha pela qual se orientam.
As demos são os cartões de apresentação para milhares de bandas, já o sabemos, onde mostram ao mundo as suas primeiras ideias e as suas influências e os Surtr não fugiram à regra. Agora, resta que continuem a desenvolver o trabalho que têm realizado desde o ano passado, quando fundaram a banda, e que nos surpreendam no próximo registo, porque existe uma boa margem de progressão pela frente. (13/20)
Lá diz o adágio popular: "Até ao lavar dos cestos é vindima.", e aplica-se a este caso como uma luva. Esta boa surpresa chega-nos da Austrália e, para realçar ainda mais a situação, é o trabalho de estreia desta banda de Sydney.
O que temos aqui é Traditional Doom e todo o seu conteúdo encontra-se bem espelhado nas palavras de Michael Ballue, na sua review no site Hellridemusic.com: "The slow, mournful and altogether metallic riffing of the guitar, the restrained punctuation of the percussion, the rhythmic/riff bridge of the bass and over it all the emotive yet restrained vocals of Sabine Hamad bring the doom in a very purified form. All elements slot in perfectly with each other and as is often the case with quality this release is well served by what is not there as well as by what is."
Todo o conjunto apresenta uma sobriedade quase palpável, uma coesão extrema e uma simplicidade desarmante, a que se junta uma voz feminina que se enquadra na perfeição. Sim, a voz é de Sabine Hamad, que conta no seu curriculum a participação com os Kimaera e o seu projecto de Doom Metal Lycanthia. O seu timbre, bem seguro, adequa-se às malhas e ritmos, funcionando como mais um instrumento, dando mais força aos temas.
Os 5 temas que compõem "Hour Of Judgement" apresentam uma grande homogeneidade, em tons bem lentos, pesados q.b., mas que procuram sempre alguma dinâmica no seu interior, evitando, assim, um mais que provável entediamento durante a audição. Um bom exemplo é a faixa "Standing In The House Of Suffering", ou então "Childhood's End".
Os Rituals Of The Oak (belo nome, por sinal), com esta estreia, têm tudo para dar nas vistas e serem grandes, num ano recheado de grandes lançamentos no que ao Doom toca. Só o tempo o dirá, mas por aqui têm lugar cativo na playlist. (17/20)
É certo e sabido que o Funeral Doom (ou downtempo, como também se aplica nos dias que correm) é um dos mais extremos sub-géneros do espectro do Metal. E ao ouvir o álbum de estreia de Bosque, chegamos à conclusão que esse extremo ganha mais dimensão, na receita que DM verte ao longo dos 4 temas que compõem este "Passage".
Ritmos ultra-lentos, guitarras cortantes, lancinantes que acompanham uma voz destroçada acompanham-nos ao longo de quase 45 minutos extremamente densos e carregados de emoções. Sim, a palavra "extremo" pode muito bem ser aplicada aqui vezes sem fim, que a sua repetida utilização não conseguirá reproduzir o que "Erasure" ou "Candles" nos transmitem durante repetidas audições. A inclusão de linhas atmosféricas, bem presentes neste último tema, para além de nos deixar respirar um pouco, e só isso, consegue criar na nossa mente uma paisagem desoladora, estéril, ou seja, reforça todo o conceito de desprendimento que rodeia este lançamento.
Nesta torrente abrasiva que nos tolda os sentidos, surge-nos no pensamento que os Skepticism, Esoteric e os Mourning Beloveth terão uma quota parte de "culpa" na composição dos sons que ora são difundidos, antecedidos por duas demos e dois splits.
No entanto, apesar de toda esta catarse bem conseguida, surgem momentos que se tornam um pouco monótonos não só pelo teor repetitivo, mas também pela experiência extrema (lá está!) que se nos depara. São, pois, arestas que podem ser limadas, mas que não tolhem o resultado final de mais um projecto nacional. (13/20)
Após ouvir este trabalho, interroguei-me se faria sentido escrever algumas linhas sobre ele; primeiro, porque vem no seguimento de trabalhos anteriores na linha de Black/Pagan Metal e, segundo, pelo anúncio de este ser uma viragem para sons mais melancólicos e atmosféricos, na linha do Black/Doom.
Pois bem, após os primeiros segundos de "The Fall Of The Mortal Aspirations", que poderiam ter sido escritos por Arjen Lucassen, deparámo-nos com uma descarga que de Black somente nos resta a voz de Athamas, dos Deferum Sacrum, enquanto que a parte instrumental recorre bastante a andamentos mais relacionados com o Doom, de facto, mas sempre enquadrados numa variedade estilística que irá fazer torcer o nariz aos fãs mais extremados de ambas as facções.
Aqui, Astaroth, o senhor por detrás dos Raventale, funde com muita clarividência e qualidade momentos goth/doom/black/death/thrash, mantendo os níveis de entusiasmo, durante a audição, bastante altos.
Quatro dos nove temas que compõem este "Mortal Aspirations" são interlúdios, curtos em relação aos outros temas; de entre estes, destaque para "Escape To The Stars" que espelha muito bem a diversidade que o álbum contém.
Mais uma vez, chamamos a atenção para o ano que agora finda, que se encontra bem recheado de bons trabalhos vindos do Leste da Europa (Rússia e Ucrânia, por exemplo). Neste caso concreto, com carimbo da Solitude Productions.
Ah, e resolvi deixar aqui estas linhas, porque gostei do desafio. (14/20)
Imbuídos pelo espírito da quadra que agora se atravessa, o Temple Of Doom Metal vem desejar a todos os votos de um bom Natal e um excelente ano de 2010, preferencialmente com muito metal à mistura.
Os italianos Sesta Marconi já por cá andam há 10 anos, mas só agora é que lançam o seu álbum de estreia; no entanto, este foi precedido, em 2008, pelo EP "Ritual Kamasutra Kitsch", que teve um razoável acolhimento no seio da crítica. Neste mesmo EP, encontram-se dois temas incluídos em "Where The Devil Dances", "Skeletons Party" e "LSWD", com ligeiras alterações.
Com o nome da banda e com os títulos enunciados, possivelmente, será um pouco difícil perceber em que domínios se movem, mas se indicarmos os Black Sabbath, Cathedral, St. Vitus já percepcionamos a base musical desta banda, à qual se pode acrescentar umas pitadas de Kyuss e Electric Wizard (na senda do stoner e psicadélia). Ora bem, isto tudo mexido deu um debut cheio de malhas cativantes, com um som bem pesado e homogéneo ao qual se junta a voz melódica de Sérgio (remetendo para uns Candlemass e Pentagram), revelando um trabalho cheio de coisas boas, que os fãs do género vão gostar de explorar, durante uns tempos. No entanto, o bom pode não ser sinónimo de interessante e, neste caso concreto, ao fim do primeiro terço do álbum as coisas começam a tornar-se previsíveis, usando fórmulas há muito descobertas e erosionadas pelo uso. Apesar disso, nem tudo é cinzento para os lados de Roma, pois o potencial está lá, falta só que algumas ideias sejam bem buriladas e explanadas nos próximos lançamentos, que cá estaremos para os ouvir. (12/20)