domingo, 22 de maio de 2011

Gallow God - False Mystical Prose EP (2010)

Por vezes, somos "sacudidos" quando menos esperamos. Não são poucas as vezes em que as nossas expectativas relativamente a um ou outro trabalho saem defraudadas, mas há casos em que acabamos por ser surpreendidos quando menos esperamos. Afinal, a música até acaba por ser um pouco isso mesmo, ou então seria demasiado previsível e enfadonha.
Com base neste intróito, já todos devem ter percebido que estes ingleses (pois, acreditamos que é algo que lhes deve correr no sangue!) constituem mais uma boa proposta nas toadas mais tradicionais do doom metal. De facto, esta estreia não poderia ser mais auspiciosa; quatro temas que respiram o legado de Tony Iommi por todos os poros e vão buscar mais algumas influências aos Reverend Bizarre, Spiritus Mortis ou até mesmo a uns Cathedral, ali por alturas do "Ethereal Mirror". São quatro temas negros, poderosos, monolíticos, que pela sua coesão e elevada qualidade de composição, nos parecem mostrar um colectivo muito bem entrosado e com ideias muito bem definidas quanto ao caminho que querem seguir com este projecto e o som que querem para os seus temas: cheio, grave, pesado, sem perder a sua definição ou qualidade.
O registo inicia-se num registo que não nos deixa indiferentes; "The Sin and Doom of Godless Men" principia com um riff muito bem sacado, que nos guia até Dan Tibbals, num timbre que nos relembra Albert Witchfinder, mas com um ligeiro travo a stoner, mais árido e duro.
"The Emissary" continua numa toada bem dolorosa, mas aqui é possível ouvir alguns solos, bem conseguidos e que encaixam na sonoridade da banda, não pretendendo um notório realce, mas antes deixam-se diluir na torrente sonora. Quanto a "Summon the Rune Wizard", acaba por ser um pouco mais na linha de "The Sin...", reforçando a ideia que os Gallow God sabem escrever boas canções e que o fazem como se já andassem por estas andanças há vários anos.
Para terminar, uma dúzia de minutos que resumem tudo o que anteriormente se ouviu; "Ship of Nails" - com a devida intro marítima -, será, porventura, o melhor deste EP. É o resumo e a indicação de algo mais; a busca de novos espaços e as vocalizações típicas do death metal fazem aqui a sua aparição, dando uma maior amplitude a um tema colossal.
As estreias, por vezes, têm o condão de nos surpreender e no caso deste "False Mystical Prose" não poderíamos ficar melhor impressionados. Resta-nos aguardar pelas novas discorrências sonoras, para breve, assim o desejamos. (14.8/20)

English:

Sometimes we are "shaken" when we least expect. There are few times when our expectations for either work out disappointed, but there are cases where we shall be surprised when you least expect it. After all, the music turns out to be a bit of that, or else it would be too predictable and boring.
On basis of this introduction, you all must have realized that these Englishmen (yes, we believe that it is something that must run on their blood!) appoint to be one more good proposal in the most traditional melodies of doom metal. In fact, this first release might not be more auspicious; four songs that breathe the legacy of Tony Iommi through all the pores and go more for some influences like Reverend Bizarre, Spiritus Mortis or even Cathedral, round about heights of the "Ethereal Mirror" album. It is four black, mighty, monolithic themes, which for their cohesion and elevated quality of composition, seems to us to show a very well integrated collective one and with ideas very well defined as for the way that want to follow with this project and the sound they want for their work: full, powerful, heavy, without losing his definition or quality.
This EP begins in a register that does not leave us indifferent; "The Sin and Doom of Godless Men" begins with a very well withdrawn riff, that guides up to Dan Tibbals, in an insignia that recalls us Albert Witchfinder, but with a light bitterness to stoner, more arid and hard.
"The Emissary" continues in a quite painful melody, but here it is possible to hear some solos, quite nice ones that fit in the sonority of the band, not claiming a well-known emphasis, but before they are let dilute in the resonant torrent. As for "Summon the Rune Wizard", it is again a little more in the line of "The Sin ...", reinforcing the idea that Gallow God can write good songs and they do it in a way like they were already walking for these wanderings for several years.
To end, a dozen of minutes that summarize everything that previously was heard; "Ship of Nails" - with the owed sound of the sea intro-, will be, by chance, the best of this EP. It is the summary and the indication of something more; the search of new spaces and the typical vocalizations of the death metal do here their apparition, giving a bigger amplitude to a colossal release.
The first nights, for times, have the privilege to surprise us and in case of this "False Mystical Prose" we might not be better impressed. We still have to wait for new tunes, soon, so we want it. (14.8/20)

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Megaphone - Entrevista aos LÖBO

O Megaphone passa de mão, dando continuidade à rubrica iniciada no mês passado com os Insaniae. Desta feita, a voz é a dos LÖBO, projecto da zona de Setúbal, que tem vindo a dar cartas por esse país fora com o seu som, no mínimo peculiar, capaz de agradar a uma variada paleta de apreciadores de música, embora as bases musicais do quarteto andem pelas toadas mais arrastadas. Foi um pouco sobre estes e outros assuntos que estivemos à conversa com Ricardo Remédio e Pedro Barceló.



No panorama nacional, os LÖBO apresentam um som bastante peculiar, um bocado fora dos trâmites normais dentro do espectro Doom ou das correntes mais arrastadas. O que gostaria de vos perguntar é o seguinte: como é que definem o vosso som?
Ricardo Remédio: A questão é… eu até acho que muitas vezes o termo que é utilizado nesta onda, a que chamam o “Pós-Doom”, acho que connosco até nem faz assim tanto sentido, simplesmente vejo este rótulo de outra maneira; é pegar no que é arrastado, no que é lento e no que é pesado e tentar encher com o máximo de coisas possível. No nosso caso, muita música ambiental, alguma electrónica e tentar fazer algo coeso; algo que a gente goste quando chega no final do dia. Acho que a designação “Pós-Doom” pode ser um termo que até nos fica bem, mas, simplesmente, em comparação com outras bandas do género, vamos buscar influências diferentes. Mas o princípio é o de pegar no Doom, ou no lento e puxá-lo para outros lados, seja com que influências forem. Acho que parte por aí, estamos confortáveis com os rótulos que nos dão, apesar que a nossa música vai para além disso.

As questões dos rótulos são sempre complicadas, por vezes as bandas também não gostam muito de serem rotuladas ou catalogadas. No entanto, uma coisa que se nota é que muitas das actuais sonoridades estão relacionadas com esse mesmo fenómeno do “Pós-“, o que não acabará por ser um guarda-chuva demasiado abrangente para tantos projectos que vão aparecendo a público?
Pedro Barceló: Acho que não. Eu e o Ricardo temos um passado dentro do Hardcore, viemos dessa cultura, tocamos em algumas bandas no final dos anos 90 e inícios da década de 00, e depois começamos a ter algumas influências de bandas fora desse estilo, bandas estrangeiras mas que tiveram o mesmo percurso, onde marcaram presença na cena Punk, Hardcore e mesmo Thrash e, neste momento, estão um pouco mais… acho que evoluíram para outro patamar; por exemplo, os Cult Of Luna ou os Isis, são bandas que têm um grande background alicerçado no Hardcore e, simplesmente, evoluíram a nível musical. O Hardcore é uma cultura jovem, e continua a ser uma cultura com muita força, mas a nível musical precisava de algo mais. Foi um pouco isso o que acabou por acontecer com os LÖBO, uma evolução que se nota mais agora. Por isso é que tocando num panorama com três bandas mais fortes, mais Doom, mais Metal [NR no contexto do Major Label Industries Fest], nos destacamos um pouco por causa disso, acho que é pela essência, um background um pouco diferente.

O som dos LÖBO foi algo pensado ou surgiu de forma natural? O facto de não incluírem vocalizações nos vossos temas também foi tido em linha de conta para a construção da vossa sonoridade
R. R.: A inclusão ou não de vozes nunca foi, propriamente, muito pensada. A génese da banda, que tem as suas raízes num projecto entre mim e o primeiro guitarrista, chamada Morte Por Acordes, que estava na linha do ambiental e foi evoluindo a partir daí. Aliás, começamos ainda sem baixista, era somente teclas, guitarra e bateria, naquela de ver o que é que saía; com o tempo, as músicas começaram a surgir, nenhum de nós era vocalista por natureza e seria difícil arranjarmos mais dois elementos para baixo e voz, para que pudéssemos fazer música. Achamos que deveríamos pegar no que tínhamos e continuar a desenvolver o nosso trabalho e a verdade é que, às vezes, essas limitações permitem-nos seguir caminhos diferentes, no sentido em que a música nunca foi pensada para ter voz, por isso segue ritmos e melodias completamente diferentes. Com isto, não queremos dizer que os LÖBO nunca irão ter voz, mas não é algo que nós consideremos quando pegamos numa guitarra, num baixo ou num teclado para fazer música.
P. B.: Nada está fora de questão. Neste momento, contamos com três guitarristas, o Ricardo também toca baixo, estamos com dois bateristas; somos muito versáteis a nível instrumental. Estamos dispostos a fazer de tudo, seja com voz, mais baixo, mais teclas, mais guitarras…
R. R.: Nós queremos colocar as próximas músicas, e se tudo correr bem para o nosso primeiro álbum, dentro de um género musical e com um ambiente definido; agora com que instrumentos o iremos fazer ainda não está definido. Vamos tentar não ter um lugar fixo em que, por exemplo, o baixista só toca baixo nas músicas todas, vamos tentar variar um pouco.

Isso faz lembrar, um pouco, os primeiros de actividade dos Queens Of The Stone Age, onde existia um núcleo duro criativo e era a imagem da banda, mas que se rodeava de uma série de colaborações que iam dando as suas ideias e inputs ao som do projecto. No vosso caso, com diferentes elementos a contribuírem para as partes de baixo, guitarra, bateria, etc.
R. R.: Sim, não fechamos a porta a esse tipo de colaborações externas. Aliás, gostaríamos de poder voltar a trabalhar com o nosso antigo baterista, que teve de sair por razões pessoais e indisponibilidade de tempo; termos duas baterias, alguns convidados. Vamos trabalhando assim dentro da banda e se houverem pessoas dispostas a dar o seu contributo, a porta está aberta.
P. B.: Já tivemos um convidado, o guitarrista e vocalista dos Men Eater, o Miguel, ele antigamente tocava o “Dânaca” nos concertos que fizemos juntos. A nossa primeira tour foi feita com eles e houve essa participação em todos os concertos nesse tema. Para além de convidado, é um amigo nosso e as coisas funcionaram mesmo muito bem, portanto, nada está fora de questão.


Da passagem da demo “Dânaca” para o EP “Alma”, que mudanças é que sentiram na composição dos temas?
R. R.: Basicamente, a diferença foi na maneira como nos colocamos para compor as músicas. O “Dânaca” foi composto na sala de ensaio e tem um sentimento maior de banda ao vivo, enquanto o EP foi acabou por ser uma experiência; começou comigo e com o Luís [NR Luís Pestana, primeiro guitarrista da banda], em que íamos efectuando algumas experiências em casa, brincando com sons até que começamos a perceber que poderia sair dali algo que encaixaria no som dos LÖBO. Impusemos algumas restrições, não no sentido negativo, mas com a finalidade de nos obrigar a procurar outras soluções e buscar coisas diferentes e, pronto, o resultado final foi algo mais frio, mais negro, mais mecânico, se calhar. A maneira como compusemos aquelas músicas acabou por ditar a forma como iriam soar e quando nos apercebemos disso, durante esse processo, dissemos ‘Vamos gravar as músicas como elas estão e ao vivo a história vai ser outra!’. Desta forma, acabamos por surpreender o público que pensa que vamos reproduzir os temas tal como foram gravados, o que acaba por permitir que tenham duas experiências diferentes: quem quiser ouvir o “Alma” mais lento, mais melancólico, mais negro ouve o EP e quem quiser sentir o lado mais visceral da banda vem ver os nossos concertos. Acho que, assim, conseguimos dar duas vidas às músicas.

Sendo o EP “Alma” um trabalho mais cerebral, nota-se uma maior abrangência sonora, talvez fruto desse mesmo conjunto de experiências que foram fazendo ao longo da composição… Não puxaram tanto as guitarras à frente, dando maior primazia à criação de atmosferas mais negras e melancólicas.
R. R.: A partir do momento que aceitamos e concordamos fazer o EP desta forma, ficou aberta uma hipótese de fazermos uma série de coisas diferentes, tanto a nível de instrumentos utilizados como ao nível da mistura. Sabíamos que iria ter um som em estúdio e que ao vivo seria diferente. Acabou por ser libertador aceitar fazer as coisas dessa maneira, porque permitiu-nos experimentar coisas, colocar influências diferentes e acabou por ajudar-nos pelo facto de mostrarmos o lado cru, visceral e pesado dos temas, mas há um registo, intencional, onde as melodias e ambientes se encontram preservadas e aparecem na mesma.

Como é que tem sido a reacção ao vosso som e aos vossos trabalhos de estúdio?
P. B.: Pelo que tenho ouvido, tem sido bastante boa. No ano passado, fizemos uma série de concertos entre Janeiro e Junho – parece muito mas praticamente foi uma tour pelo país em que tocávamos somente aos fins-de-semana – e penso que em todos os concertos tivemos um feedback mesmo muito bom, de várias pessoas com gostos bastante diferentes, do Pós-Rock ao Doom. As vendas de merchandise têm sido excelentes, temos chegado a pessoas dos EUA, de Espanha, de França e, no geral, achamos que tem sido muito positivo. Fomos tocar a Faro, somente os LÖBO em cartaz, e conseguimos colocar cerca de uma centena de pessoas na sala, bastante pequena e correu tudo mesmo muito bem, as pessoas adoraram. Tem sido, mesmo, muito positivo.

A banda tem disponibilizado ao público o seu trabalho de diferentes formas, desde métodos físicos mais convencionais e passando por outros com recurso à internet, com a possibilidade de efectuar o download dos temas, a demo “Dânaca” e o tema “Noite”. Como é que vêem essas duas formas de lançamento dos vossos registos?
R. R.: A nossa opinião é a que temos de aceitar a internet e usá-la a nosso favor, em nosso benefício. Resistir ao formato físico, hoje, não faz sentido, não podemos levar a mal as pessoas terem a nossa música, a descarregá-la, aliás, incentivamos que isso aconteça porque a disponibilizamos de forma gratuita; no fundo, achamos que o formato CD perdeu importância. Se não incluir algo diferente, informação adicional, seja o artwork ou outra coisa qualquer, mas o CD pelo CD já não tem tanto valor, mais vale disponibilizar gratuitamente. O “Alma” teve antes da saída em formato físico, uma versão digital pronta a ser descarregada. Isso só nos abriu portas, permitiu que imensas pessoas pudessem chegar ao nosso som, apesar das pessoas poderem pensar que dessa forma já não iriam vender o EP, mas no final quem gosta mesmo acaba por comprar. Por isso, a nossa abordagem é de abertura completa.

A banda sofreu algumas mudanças de line up recentemente. Que ideias e influências trouxeram os novos elementos e que mudanças poderão ter ocorrido no som dos LÖBO com estas novas entradas?
R. R.: É um pouco cedo para falarmos sobre isso, porque ainda não iniciamos o processo de composição conjuntamente. Estamos a reinterpretar as nossas músicas com este line up. Relativamente a influências, pelo que consigo depreender, penso que o som futuro talvez seja mais sujo, mais pesado, vamos tentar buscar coisas novas… Há o desejo de fazer algo diferente do EP, abrir mais os horizontes, alicerçados nos sons pesados e arrastados; agora, vamos ver como as coisas evoluem.

Como está o processo de composição e gravação do vosso primeiro álbum?
R. R.: Ainda está na fase inicial, porque com as mudanças de line up, a banda parou cerca de meio ano e não fazia muito sentido estar a compor muitas coisas e depois parar tudo e enquadrar nessas mesmas composições os novos elementos, bem como ensinar-lhes os temas antigos. Achamos por bem parar e realizar uma coisa de cada vez, com uma boa integração dos novos elementos.

Para terminar: planos para o futuro próximo dos LÖBO?
P. B.: Para além de ensaiar muito, tentar criar coisas novas para o nosso álbum. Talvez haja um lançamento ainda antes, mas vamos esperar para ver as novidades. Vamos tentar dar mais alguns concertos até ao Verão e, depois, até ao final do ano, talvez já com alguns temas novos.
R. R.: E, se tudo correr bem, gravar o álbum ainda em 2011, acho que seria ouro sobre azul. 

(Gostaríamos de agradecer à Joana Cardoso a facultação das fotos e ao Side B todas as facilidades concedidas para a entrevista).

Temple Of Doom Metal

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Ab Reo Dicere (22.04.2011) - Clorange/Lengua Mortuoria/Dormant Inferno

Clorange - Clorange (EP) 2010

Trabalho de estreia desta banda que nos chega de Nashville, composto por quatro temas baseados no doom e no stoner metal, com vocalização feminina, aliás como já vem sendo hábito em colectivos que unem estes dois estilos musicais.
Sendo um debut, é normal que as influências estejam um pouco mais presentes e por aqui ressaltam logo os Electric Wizard, os Sleep e os Jex Thoth, para além do legado sabbathiano sempre audível nestas sonoridades.
Este EP inicia com um pequeno instrumental, "Haze", que indica as coordenadas para a meia hora seguinte: doom/stoner que já foi revisitado inúmeras vezes, com algumas linhas interessantes e algum experimentalismo à mistura, principalmente em "Lunar Schock Delirium", melhor tema deste registo. No entanto, nota-se que ainda há muito caminho para desbravar, no sentido de conseguirem algo mais consistente; assim o esperamos. (10.5/20)

English:
Working debut of this band that comes from Nashville, with four songs based on doom and stoner metal, with female vocalization, as has already been a habit in collectives that unite these two musical styles.
As a debut, it is normal that the influences are a little more present here and just point out the Electric Wizard, Sleep and Jex Thoth, in addition to the sabbathian legacy always audible in these kind of sounds.
This EP starts with a short instrumental, "Haze," which indicates the coordinates for the next half hour: doom/stoner that has been revisited numerous times, with some interesting lines and some experimentation to the mix, especially in "Lunar Schock Delirium", best song of this record. However, there is still a long way to clear in order to get something more consistent; hopefully. (10.5/20)


Lengua Mortuoria - Viaje Negro (EP) 2010

Não foram precisos muito segundos para perceber que a audição deste EP dos argentinos Lengua Mortuoria iria ser, de facto, uma viagem bem negra. O que temos aqui são três temas de drone/ambient que poderiam servir de banda sonora para um qualquer filme de terror de série B. Temos por aqui linhas de baixo cheias de distorção que comungam com grandes sequências atmosféricas a pender para o fantasmagórico, ou abordagens quase minimalistas, claustrofóbicas, onde algumas vozes deambulam num plano longínquo e são abafadas por elementos noise, acrescentando uma maior carga dramática a este trabalho.
A viagem termina com "Millones de Pequenos Horrores", um longo tema de 15 minutos que perscruta o mais profundo da nossa mente; tortuoso e tenebroso. 
"Viaje Negro" não é fácil de ouvir e digerir, mas aí poderá estar a mais-valia deste trabalho: a necessidade de contínuas audições, para que cresça e cause corrosão e mal-estar nos seus ouvintes. (11.0/20)

English:
We didn’t need many seconds to realize that hearing this EP of Argentines Lengua Mortuoria would be indeed a very dark journey. What we have here are three themes of drone/ambient that could serve as a soundtrack for any horror film in a B series. We hear bass lines filled with distortion that they share with great atmospheric sequences to tilt to the ghostly, or almost minimalist approaches, claustrophobic ones, where some wandering in a plane distant voices are stifled by noise elements, adding a greater amount of drama to this work .
The trip ends with "Millones de Pequenos Horrores," a 15-minute long song, that investigates the depth of our mind; devious and sinister.
"Viaje Negro" is not easy to hear and digest, but there may be the added value of this work: the need for continued hearings, to grow and cause corrosion and malaise in their listeners. (11.0/20)


Dormant Inferno - In Sanity (demo) 2011

Quem tomar contacto com este trabalho de estreia dos indianos Dormant Inferno, ficará, logo no início de "Failed Experiments", com a sensação que uma tempestade se afigura no horizonte e que arrebenta nas nossas colunas poucos segundos depois, levando-nos na forte corrente onde o doom/death reinam, a melancolia é omnipresente e os anos 90 estão, também, ali à espreita.
Estes três temas são feitos destes elementos, mas não só. Profundos growls que, a espaços, alternam com vocalizações mais rasgadas - como em "Ashes", por exemplo -, riffs pesadões, secção rítmica segura e dinamismo nos temas, não sendo raro que a meio dos temas as coisas se aproximem um pouco do mid-tempo, mostram um trabalho elaborado e com qualidade.
O trabalho vale pelo seu todo, não havendo nenhum tema que se destaque ou que contenha uma malha que continue a martelar-nos na cabeça após o fim da demo. Apesar disso, existe homogeneidade no seu conjunto, não soam desgarrados, o que lhes permite sonhar com voos mais altos, num género que tem estado um pouco dormente ultimamente. (11.7/20)

English:
Who have contact with this debut work of Indian Dormant Hell, will be right at the beginning of "Failed Experiments," with the feeling that a storm appears on the horizon and that is striking in our columns a few seconds later, taking us into the strong current where the doom / death reign, melancholy is pervasive and the 90 are also lurking there.
These three themes are made of these elements, but not only. Deep growls that, in space, alternating with more vocalizations torn - as in "Ashes," for example - lumbering riffs, rhythm section and drive safely on issues, it is not uncommon for half of the subjects to approach things a little mid -time, show an elaborate and quality.
The work draws on the whole, there was no single theme that stands out or contains a loop that continues to pound us in the head after the end of the demo. Nevertheless, there is homogeneity in the whole do not stray sound, allowing them to dream of flying higher in a genre that has been somewhat dormant lately. (11.7/20)

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Alunah - Call Of Avernus (2010)

Os Alunah chegam-nos de Inglaterra, mais precisamente do eixo Birmingham-Coventry e lançaram o seu primeiro longa-duração através da Catacomb Records. Composto por nove temas, todas elas alicerçadas numa base stoner/doom metal, mas que incorpora no seu som, com alguma frequência, elementos ligados ao psicadelismo e injecta-lhes uma boa dose de groove.
Até aqui o percurso da banda de Sophie Willet, Dave, Gaz e Jake foi sem grandes sobressaltos, com uma exposição crescente através de lançamentos - uma demo, um EP e um split com os Queen Elephantine -, que lhes foram granjeando uma maior visibilidade, dando a conhecer as suas composições a um maior número de pessoas e suscitando o devido interesse.
"Call Of Avernus", o chamamento para o sub-mundo, para o Hades, mostra-nos não uma banda em queda para estas profundezas, mas algo já bem enraizado, coeso, com ideias definidas quanto ao som que quer atingir - afinal, as demos para que servem, para além de cartão de visita?. Começando com dois temas que se aproximam do mid-tempo, dando a impressão que os Alunah deixaram para trás as toadas bem lentas do EP "Fall To Earth", o álbum entra numa toada mais "familiar" a partir do tema "Song Of The Sun" - single óbvio, caso houvesse! -, onde se nota a exploração de novos caminhos musicais, deixando a voz de Sophie fluir, com mais ou menos efeitos, mas que marcam estes temas com o seu particular timbre, que de outra forma tornaria tudo um pouco mais banal - o que não quer dizer fraco ou mal executado, entenda-se! Há aqui espaço para quase tudo: momentos mais a rasgar, outros mais comedidos, algum experimentalismo que se cruza com riffs monolíticos que desembocam em solos bem encaixados - onde o wah-wah acaba por ficar tão bem... enfim, tão variado quanto possível, a léguas de ser monótono ou maçador.
Com "Call Of Avernus", o leque de escolhas alargou-se, dando mais espaço para a banda evoluir e dar maior dimensão aos seus temas. Quem acompanha o projecto desde "Crystal Voyage", reconhecerá o processo de amadurecimento deste quarteto e que estes 50 minutos mostram-nos um trabalho meritório, embora sem grandes novidades no espectro stoner/doom, que vale pelo seu todo e que cresce a cada audição. Não é um trabalho entretido, mas garante o seu tempo. (13.2/20)

English:
The Alunah reach us from England, specifically the Birmingham-Coventry axis and released their first full-length through Catacomb Records. Comprising nine tracks, all anchored on a stoner/doom metal, but incorporates into their sound, with some frequency, elements associated with psychedelia and injects them with a good dose of groove.
So far, the band`s route of Sophie Willet, Dave, Gaz and Jake has been no major surprises, with an increasing exposure through releases – a demo, an EP and a split with Queen Elephantine -, they have been garnering increased visibility making known their compositions to a greater number of people and arousing the interest due.
"Call Of Avernus", calling to the underworld, to Hades, shows us not a band to fall for these depths, but something already well established and cohesive, with definite ideas about the sound they want to achieve - after all, what are the demos, in addition to business cards?. Starting with two themes that are approaching the mid-tempo rhythm, giving the impression that Alunah left behind the very slow tunes from the EP "Fall To Earth", the album goes into a tune more familiar from the song "Song Of The Sun "- obvious single, if there was! -, which notes exploring new musical paths, leaving the voice of Sophie flow, with more or less effect, but that mark these issues with her particular timbre, which otherwise would make things a little more banal - not mean weak or poorly executed, I mean! There is room here for almost everything: more time to tear, others more restrained, some experimentalism that intersects with monolithic riffs that lead to solos firmly in place - where the wah-wah ends up as well ... at long last, as varied as possible, the leagues to be monotonous or boring.
With "Call Of Avernus," the range of choices has widened, giving more space for the band evolve and give more dimension to his songs. Anyone who follows the project from "Crystal Voyage," will recognize the process of maturation of this quartet and 50 minutes they show us a meritorious work, but no big news in the spectrum stoner / doom, that worth the whole  and it grows every hearing . Not a fun job, but ensures your time. (13.2/20)

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Naisian - Mammalian (2011)

Quando "Fletcher-Munson" começou a brotar das colunas, instalou-se a dúvida se não estaríamos a ouvir algo dos Neurosis ou perante mais um projecto que segue, de forma mais ou menos fiel, as pisadas de Scott Kelly e Cª. De facto, os britânicos Naisian não só devem conhecer bem o trabalho daquela seminal banda como tem nos finados Isis, igualmente, uma das suas principais referências. Este tema de abertura e o seguinte, "Bellicist", bebem tanto dessas fontes que até parece que caíram lá dentro, qual Obélix no caldeirão da poção mágica!... Apesar de bastante competentes, acabam por ser os momentos menos cativantes deste trabalho. Somente ao terceiro tema é que o cenário muda de figura, o quarteto tira a máscara, ganha desenvoltura e mostra ao que vem: sludge com reminiscências ambientais e progressivas! Confuso, não parece? Pois bem, é com "Take Me To The Mountain Dew Mountain" que as coisas começam a ganhar piada, apesar dos nomes dos projectos já mencionados continuarem a pairar sobre as músicas. Um baixo de linhas que roçam quase o funk, aliado a guitarras ora limpas ora sujas e ásperas, como só no sludge sabem ser, numa estrutura musical não muito complexa, mas que habilmente trabalha a dicotomia placidez e raiva, mostram a qualidade destes músicos e dos seus temas. É precisamente nos temas mais longos que a banda ganha uma nova dimensão, espelhada no tema-título, um opus quasi-instrumental que em nada deve ao que já ouvimos por aí dezenas de vezes, que parece fugir quando começa a entranhar e regressa com um violino oscilante entre o épico e o dramático e aquelas guitarras hipnóticas, desaparecendo tal como surgiu, reaparecendo carregando aos ombros uma qualquer ambiência digna do post-metal.
Para o fim, a síntese desta experiência de quase 40 minutos: "I am Eustache Dauger". A mescla do sortido de sons, ambientes, sensações, que nos conduz para um final que nos faz carregar no play novamente.
Se a aposta tivesse sido efectuada apenas nos derradeiros três temas, diríamos que estávamos perante um caso muito sério. Assim, teremos que esperar para confirmar se esta veia criativa se prolonga e afirma os Naisian como mais um projecto a ter em (muita) linha de conta. (13.8/20)

English:
When "Fletcher-Munson" began to sprout up in columns, we settled the question whether we would be hearing something from Neurosis or more before a project that follows, more or less faithfully in the footsteps of Scott Kelly and Co. In fact, the British Naisian not only must be familiar with the work of that seminal band or the deceased Isis, also one of its key references. This opening theme and the next, "Bellicist" drink both of those sources which seem to have fallen inside, which Obelix in the cauldron of magic potion! ...Though competent enough, turn out to be less compelling moments of this work. Only the third theme is that the scenery changes from the figure, the quartet takes off the mask, and shows their work: sludge reminiscent environmental and progressive! Seems confused? Well, it is with "Take Me To The Mountain Dew Mountain" that things begin to take a joke, though the names of the projects already mentioned continue to hover over the songs.
With a bass guitar work  that almost touch funk, sometimes combined with clean guitars sometimes dirty and ragged, just like the sludge you know to be, in a musical structure is not very complex, but it cleverly works the dichotomy calmness and anger, show the quality of these musicians and of its themes.
It is precisely the themes that longer the band gains a new dimension, reflected in the title song, an instrumental opus that in no way due to what we've heard around a dozen times, that seems to escape when it begins to seep into and returns with a Violin oscillating between epic and dramatic and those hypnotic guitars, disappearing as it appeared they touch almost funk, sometimes combined with clean guitars sometimes dirty and ragged, just like the sludge you know to be in a musical structure is not very complex, but it cleverly works the dichotomy calmness and anger, show the quality of these musicians and reappeared carrying on his shoulders an ambience worthy of any post-metal.
To this end, the synthesis of this experience of almost 40 minutes, "I am Eustache Dauger. The mixture of the assortment of sounds, atmospheres, sensations, which leads to an ending that makes us click on play again.
If the bet had been made only in the final three songs, we would say that we were facing a very serious case. So we have to wait to see if this creative streak continues and affirms Naisian as another project to take (much) account. (13.8/20)

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Megaphone - Entrevista aos INSANIAE

Nova rubrica. Megaphone. Assim mesmo, com o cheiro a escrita antiga, portuguesa, papel amarelecido com a passagem dos anos, mas que sabe tão bem folhear e descobrir.
Esta rubrica marca um ciclo de entrevistas a projectos portugueses inseridos nas correntes mais arrastadas do espectro metálico, iniciado com a banda lisboeta INSANIAE.
Eis a amistosa conversa que tivemos com a banda, após mais um concerto de promoção ao seu mais recente trabalho, "Imperfeições da Mão Humana", no Side B, em Benavente.


O vosso segundo álbum, “Imperfeições da Mão Humana”, saiu há quase um ano. Que tipo de reacções é que têm recebido relativamente a este trabalho?
Diogo Messias: Temos recebido boas reacções, nomeadamente por parte da editora, a ARX Productions, que nos informou que neste momento a edição do álbum encontra-se esgotada. Pelos vistos naquele mercado as coisas correram bem e cá em Portugal, também temos recebido boas reacções. Estamos satisfeitos.

Certamente que vocês encontram diferenças entre os vossos dois longa-duração [NR “Outros Temem Os Que Esperam Pelo Medo da Eternidade”, de 2006, e “Imperfeições da Mão Humana, de 2010]. Na vossa opinião, quais são as mais evidentes ao nível da composição e, depois, no resultado final?
DM: Sofremos uma evolução muito natural. Penso que neste álbum, estamos mais perto daquilo que queremos fazer, daquilo que tencionamos fazer e vamos amadurecendo, tanto na parte técnica, enquanto músicos, quer na clarificação das ideias. Contamos com a nossa experiência, também. Estamos mais próximos do que queremos fazer e do que vai ser o futuro.

E estão mais próximos daquilo que querem atingir, em termos sonoros? Nota-se uma grande diferença ao nível da produção, pelo menos, entre os trabalhos.
DM: Sim, são coisas que acabam por serem naturais. E essa evolução em termos sonoros acabou por ser normal. O Fernando [Matias, produtor de “Imperfeições da Mão Humana”], fez um excelente trabalho e acho que em todos os aspectos foi um passo em frente.

Depreende-se que todo este processo foi natural, que resultou como fruto da vossa experiência; não foi nada planeado. Deixaram, somente, a vossa experiência fluir…
DM: Sim, é basicamente isso. Sempre que nos reunimos para ensaiar e compor, tudo é muito natural, não há um plano definido, nenhum masterplan, é mesmo o que vai saindo de cada um de nós, sempre verdadeiro, mais próximo do que conseguimos e queremos fazer.

A banda Insaniae já está nestas andanças há quase uma década, mas os seus elementos já integraram outros projectos, desde há, pelo menos, 15 anos. Que balanço é que fazem, por ora, do percurso dos Insaniae?
DM: Acho que é positivo, senão não o continuaríamos a fazer. É o que nós gostamos de fazer e queremos dar continuidade a este trabalho. Preferimos olhar para frente e não ficar a pensar muito no passado. Estamos atentos ao que se passa no panorama nacional; todas as bandas de Doom, algumas que estão aqui hoje, as quais vamos acompanhando e, também, influenciando. E, assim, vamos andando para a frente. O balanço é positivo.

Aparentemente, nota-se que os Insaniae têm sofrido de uma menor exposição e divulgação, comparativamente a outros projectos nacionais. Acham que carecem de maior divulgação ou faltará aquele click, e que uma editora pegue na banda e a lance para um patamar superior? Qual a vossa opinião?
DM: Nós temos estado atentos às bandas e ao que se passa no panorama nacional. De igual forma, estamos atentos ás editoras e, portanto, gostaríamos de poder ter mais alguma projecção nacional, sobretudo nesta fase. Em termos de promoção, penso que é possível fazer mais; isto é Doom, é lento, tudo devagar, até a promoção o é. [risos] Estamos a tentar andar para a frente, a utilizar, cada vez mais, as ferramentas possíveis.
Luis Possante: Ter uma editora no estrangeiro também acaba por ser diferente. Em Portugal poderá não funcionar tão bem com se tivéssemos assinado por uma editora nacional, como é óbvio.
Pedro: Também houve problemas de line up. Logo após o lançamento do álbum, deu-se a saída do baterista e assim ficamos quase um ano, o que igualmente provocou um atraso na divulgação e promoção da banda e do seu trabalho.


Pelo facto de terem lançado o “Imperfeições…” pela mão de uma editora ucraniana, existem algumas perspectivas de poderem fazer alguma coisa fora de Portugal?
DM: Existe vontade e existem contactos, mas penso que para os tempos mais próximos não temos nada marcado nesse aspecto. Estamos receptivos a propostas, a uma tournée ou a outro evento lá fora, claramente. Uma oportunidade dessas não será de desperdiçar, mas até ao momento não surgiu a proposta certa, mas não estamos, de todo, fechados a isso.

Ainda relativamente ao impacto do “Imperfeições…”, desta feita fora de Portugal: têm recebido feedbacks de várias origens?
DM: Sim, recebemos, essencialmente pelo facto de cantarmos em português; provenientes do Brasil, importantes e positivas. Até já nos perguntaram quando é que lá vamos tocar, possivelmente, sem a noção da dimensão das coisas… [risos] Também obtivemos notícias positivas de países nórdicos, da Holanda, da Bélgica, com alguns contactos à mistura, eventuais trocas de concertos com bandas de lá a mostrarem cá o seu som. É certo que a nível pode tornar-se um pouco complicado. Mas sim, estamos satisfeitos com as reacções obtidas.

Acabaram por lançar este novo álbum através de uma editora estrangeira, e de entre o conjunto de bandas que têm estado mais activas, dentro do espectro das correntes mais arrastadas, os Insaniae são os únicos que utilizam a língua de Camões!... É vossa intenção continuar com o português nos vossos temas, em trabalhos futuros?
DM: Não há regras pré-estabelecidas. No concerto de hoje, apresentamos dois temas novos com letras em inglês [NR “Forsaken And Forgotten” e “I Am”]. Não tem que ser em português, inglês ou francês; é um bocado como nos dá na “real gana”, passo a expressão. Agora, quisemos experimentar em inglês, mas nada garante que esta experiência esteja garantida para o futuro. Surge consoante o nosso sentimento durante o processo de composição e o que queremos fazer. Não há nenhum plano rígido como estava a dizer há pouco.

Para terminar, uma questão com vista a levantar um pouco o véu do futuro da banda. Que planos é que os Insaniae têm para os próximos tempos?
DM: Iremos procurar solidificar a nossa posição, aqui em Portugal, com mais algumas actuações ao vivo. Já estamos a compor coisas novas, estamos a pensar gravar também. O futuro passará por aí. Não perdemos muito tempo a olhar para trás. Já passou algum tempo desde que o álbum saiu, algum tempo desde que foi gravado e mais tempo desde que foi composto. Portanto, estamos a pensar em novas músicas, o futuro editorial ainda não está totalmente definido, mais concertos. Sempre mais e melhor.


(Gostaríamos de agradecer à Joana Cardoso a facultação das fotos e ao Side B todas as facilidades concedidas para a entrevista).

Temple Of Doom Metal

sexta-feira, 11 de março de 2011

Spiritus Mortis - Spiritus Mortis (reed. 2010)

A par do fenómeno das "reuniões" de bandas, um outro parece estar em crescendo e que é o das reedições, do qual os Neurosis serão a sua face mais visível neste último par de anos.
Não querendo esmiuçar os possíveis motivos que levam bandas e editoras a enveredarem por este caminho, o facto é que quem pode beneficiar com todo este processo é o público (por um lado, para conhecerem estes projectos/álbuns, por outro, para os fãs/coleccionistas completarem a sua discografia com alguns bónus, mais ou menos pertinentes).
Adiante. Os finlandeses Spiritus Mortis vêem o seu primeiro longa-duração reeditado, através da Firebox Records, trazendo um novo artwork, remasterização dos temas originais aos quais foram adicionados quatro temas inéditos. Filiados na linha do doom metal de linhas mais tradicionais, lançaram este seu trabalho homónimo em 2004, dezassete anos - dezassete!-, após a sua formação e quase uma dezena de demos, o que demonstra uma clara perseverança da banda de Alavus e crer no seu som e temas; sim, porque ao longo dos, então, catorze temas podíamos ouvir uma mão cheia de boas malhas, com eventuais aproximações ao hard rock e alguns apontamentos mais bluesy, conferindo-lhe frescura e dinâmica, num género onde as inovações não são o pão nosso de cada dia. Toda esta mescla trouxe mais-valia a este trabalho. "Rise From Hell", "Vow To The Sun" ou "Forever", são alguns dos temas que marcam a sonoridade da banda e demonstram a qualidade que ela tem e apresenta (13.5/20).
Quanto às novidades: foram adicionados quatro temas inéditos, que totalizam cerca de uma vintena de minutos, que em pouco ou nada diferem do alinhamento original. Poderíamos pensar em outtakes, temas descartados pela fraca qualidade, mas não, a fasquia mantém-se inalterada, sem surgir aquele sentimento de estarmos perante uma série de fillers e que, certamente, agradarão aos apreciadores do género. Para os outros, são vinte minutos de bom doom metal que lhes poderá passar ao lado. (14/20)

English:

Alongside the phenomenon of "meetings" of bands, another seems to be growing and that is the reissues, which will Neurosis its most visible face in the last couple of years.
Not wanting to go into the possible reasons that bands and labels to take this path, the fact is that anyone who can benefit from this process is the public (on the one hand, to discover these projects/albums, second, for the fans/collectors complete their discography with some bonus, more or less relevant).
Ahead. The Finns Spiritus Mortis see their first long full length reissued by Firebox Records, bringing a new artwork, remastered from original songs to which were added four unreleased songs. Affiliated to the line of doom metal in more traditional lines, launched this work in 2004 titled, seventeen years - seventeen! - after their formation and almost a dozen demos, which shows a clear band's perseverance Alavus and believe in its sound and themes, yes, because over then fourteen subjects we could hear a handful of good songs with possible approaches to hard rock and some more bluesy notes, giving it fresh and dynamic, in a genre where the innovations do not are our “bread each day”.
The whole mix has added value to this work. "Rise From Hell," "Vow To The Sun" or "Forever", are some of the themes that mark the band's sound and demonstrate the quality and features it has (13.5/20).
Regarding news: we added four unreleased songs, totaling about a twenty minutes, nothing different from the original alignment. We could think of outtakes, discarded by the poor quality issues, but no, the slab remains unchanged, that arise without feeling that we are facing a series of fillers and that certainly will appeal to fans of the genre. For others, are good twenty minutes of doom metal that can pass them along. (14/20)

sexta-feira, 4 de março de 2011

Koloss - End Of The Chayot (2011)

Em sentido desde o primeiro segundo! É assim que começa este trabalho dos suecos Koloss; uma explosão sonora maciça que nos coloca logo no meio do cenário que nos acompanhará durante os 39 minutos seguintes: uma boa dose de sludge/doom metal, com ocasionais piscadelas de olho ao post-metal.
Pois é assim "The End Of The Chayot", um trabalho sem grandes rodeios, composto por uma mão cheia de temas coesos, sólidos, bem trabalhados, com uma parte instrumental agradável - apesar de inócua no que diz respeito a novidades - e linhas vocais fortes, bem ao jeito do que se espera num trabalho neste quadrante musical. No entanto, ao longo das sucessivas audições existe sempre um certo desconforto que nos invade; parece que já ouvimos algo parecido algures... tanto nos momentos mais atrozes como nas passagens mais contemplativas ou atmosféricas.
Parece-nos certo que ainda não se verificou uma descolagem relativamente às suas influências que abarcam momentos que giram em torno das toadas do post-hardcore, post-metal (o duo Neurisis a fazer mais quatro vítimas) e lampejos progressivos. Apesar disso, estamos perante um trabalho meritório, mas para uma próxima edição, terão de colocar a fasquia bem mais alta para que consigam fugir ao rótulo de meras cópias de uma onda que transborda de projectos dentro do género.
Para ouvir, apreciar e em visita ao sítio da banda na grande rede o download deste trabalho é permitido.
Colosso, mas com cuidado. (13/20)

English:
In effect from the first second! Thus begins this work of Swedes Koloss; a massive sonic boom that puts us right in the middle of the picture that will go along with us during the following 39 minutes: a healthy dose of sludge/doom metal with occasional winks an eye to post-metal.
For that is how "End Of The Chayot," a bluntly work, composed of a handful of themes cohesive, solid, well crafted, with a nice instrumental part - though harmless in respect of the news - and vocal lines strong, well the way of what is expected in a musical work in this quadrant. However, during the successive hearings there is always a certain unease that pervades us, it seems we've heard something somewhere ... both in the most atrocious as the more contemplative or atmospherics passages.
It seems to us certain that there was still a take-off in relation to their influences that embrace the moments that revolve around the tunes from the post-hardcore, post-metal (the Neurisis duo doing four more victims) and progressive flashes. However, this is a meritorious work, but for an upcoming edition, they will have to set the slab much higher so they can escape the label of mere copies of a wave that is overflowing with projects within the same genre.
To listen, and enjoy visiting the website of the band, in the vast network download this work is allowed.
Colossus, but with caution. (13/20)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A Dream Of Poe - The Mirror Of Deliverance (2011)

Há alguns meses atrás, quando nos debruçamos sobre o EP "Lady Of Shalott", referimos que esse mesmo trabalho era um aperitivo para o longa-duração que se encontrava em preparação. Aí, era exposto ao mundo um tema com o mesmo título, cartão de visita para este "The Mirror Of Deliverance; de facto, neste momento, não poderemos dizer se foi ou não o melhor cartão de visita, porque os seis temas que perfazem este álbum são tão homogéneos, tão negros, densos, pesarosos e angustiantes que qualquer um deles seria uma boa escolha. É claro que quem tomou contacto com "Lady...", possivelmente, lhe saltará mais ao ouvido esta música. Mas, no mesmo patamar encontramos uma "Neophyte" ou uma "The Lost King Of The Lyre". "Os Vultos" é uma composição completamente arrepiante, de uma cândida negrura que não deixará ninguém indiferente. Com um início que tresanda a oceano, a saudade, a Portugal, no fundo; evolui, apresentando contornos algo épicos, com solos bem sacados, em diferentes registos, e que no conjunto demonstram a qualidade que por aqui podemos encontrar espalhada ao longo deste 51 minutos. A declamação, ainda em "Os Vultos", exibe palavras que dançam sobre as notas de guitarra, num texto trágico, belo e dorido. São dez minutos de uma lentidão sentida, desarmante, que passam a voar (a antítese faz todo o sentido!...).
"The Mirror Of Deliverance" acaba por não constituir uma surpresa na sua totalidade, excepto para aqueles que somente agora tenham contacto com este projecto; a qualidade dos temas era já conhecida e, aqui, encontra-se espalhada por todos os lados, quer em momentos mais agrestes quer em outros mais calmos e contemplativos. Este trabalho irá viver da sua homogeneidade e, certamente, crescerá à medida que as audições forem aumentando, porque há sempre alguns pormenores para descobrir por entre malhas lentas, lancinantes e ritmos que, por vezes, quase roçam o funéreo.
Resta-nos aguardar que estes tenham rodagem em palco, para atestar do seu poder. Bem merecem! (15/20)

English:
A few months ago, when we focus on the single “Lady of Shalott”, we mention that this same work was an entrée for the long-term which was in preparation.
Then it was exposed to the world a theme with the same title, a pasteboard for this "Deliverance Of The Mirror”, in fact, right now, we can not say whether or not it was the best pasteboard, because the six themes that make up this album are as homogeneous, as dark, dense, mournful and distressing, than any of them would be a good choice. It is clear that whoever has contact with "Lady ..." possibly jump over him to hear this music. But at the same level we find "Neophyte" or "The Lost King of The Lyre. "Os vultos” are a composition quite creepy, in a candid blackness that will not leave anyone indifferent. With a start that reeks of the ocean, longing, to Portugal, at bottom evolves, introducing something epic contours, with guitar solos well-drawn, in different registers, and which together demonstrate that the quality here can find scattered throughout 51 minutes. The recitation, also found in "Os vultos", displays words that dance on the guitar notes, a text in a tragic, beautiful and sore. Ten minutes felt a slow, disarming, that go flying (the antithesis makes sense!).
"The Mirror Of Deliverance" ends up not as a surprise in its entirety, except for those who only now have contact with this project, the quality of the subjects was known, and here is spread everywhere, whether in roughest moments and in other more quiet and contemplative. This work will live on in their uniformity, and certainly grow as the hearings are increasing because there are always a few details to find out through meshes slow, excruciating and rhythms that sometimes almost graze the funereal.
We can only wait until they have running on stage to demonstrate their power. Well worth! (15/20)

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Process Of Guilt - The Circle (2011)

E porque não? E porque não um trabalho de remisturas? Para alguns, esta nova proposta dos alentejanos Process Of Guilt poderá soar descabida ou completamente non-sense, mas o facto é que esta ideia arrojada - há que o admitir -, acaba por encaixar bastante bem num processo de maturação que a banda vem vivendo desde os seus primórdios, o que não quer dizer que vá, futuramente, enveredar por esses caminhos - as experiências conhecidas por todos, relativamente a incursões dessa índole, fez muita gente torcer o nariz e, diga-se, a qualidade desses mesmos trabalhos também foi questionável -, julgamos.
Um disco de remisturas de uma banda de Metal, talvez não seja muito habitual, e muito menos o será o de uma banda alicerçada no Doom/Death Metal, para mais sedeada em... Portugal! E as versões versam, desculpem a redundância, sobre o mesmo tema! Mas até nisso achamos que esse é mais um ponto a favor.
Gravitando em torno de "The Circle (Erosion Part I)", que abre este mesmo trabalho em jeito de ligação a "Erosion" e, ao mesmo tempo, servir de comparação às novas roupagens trazidas por nomes como Sanford Parker (dos Minsk e Buried At Sea), Echoes Of Yul, os nacionais DJ Mofo e Bosque e os espanhóis Sons Of Bronson (Toni Querol, dos Lords Of Bukkake), os pouco mais de 30 minutos de música evidenciam uma nítida remodelação do tema original, com algumas vocalizações novas, toadas mais ambientais, mas sempre pintadas em tons cinzentos, criando cenários soturnos mas, ao mesmo tempo, cativantes.
São cinco visões de um mesmo tema e outras tantas poderiam estar por aqui que, possivelmente, trariam algo de novo na sua interpretação desta música dos Process Of Guilt.
Derivativas à sua maneira, nenhuma das reinterpretações está "encostada" ao original; aqui e ali encontra-se uma linha de guitarra, uma batida de bateria "retirada" do original, mas no essencial, tudo é desconstruído e é criada uma nova base musical.
Estamos, portanto, longe dos terrenos em que normalmente vemos o quarteto movimentar-se, mas não deixam de ser áridos, erodidos pela acção dos elementos; para ouvir, sem rodeios.
Quem andava à procura do sucessor de "Ocean Remixes/Reinterpretations", dos Isis, ou de um trabalho qualquer dos Jesu, pode muito bem encontrá-lo aqui, antes que esgote! (15/20)

English:
And why not? And why not a work of remixes? For some, this new proposal of Process of Guilt from Alentejo, may sound misplaced or completely non-sense, but the fact is that this valiant idea - let us admit it - turns out to fit very well into a process of maturation that the band has been living since the beginning, which is not to say that will in future go down these paths - experiences known to all, for raids of this nature, has made many people turn up their noses and, incidentally, the quality of these works was also questionable judging.
An album of remixes from a Metal band, perhaps not very usual, and much less will be of a band based on Doom/Death Metal, from ... Portugal!  And the versions deal with, on the same topic! But even this idea is one more favourable point.
Gravitating around "The Circle (Erosion Part I)", which opens the same way to work in connection to "Erosion" and at the same time, serve as a comparison to the new outfit brought by Sanford Parker (Minsk and the Buried At Sea), Echoes of Yul, the Portuguese projects Bosque and DJ Mofo and Spaniards Sons of Bronson (Toni Querol, from Lords of Bukkake), a little over 30 minutes of music show a marked remodelling of the original theme, with some new vocalizations, more atmospheric tunes, but always painted in gray tones, creating gloomy scenarios, but at the same time absorbing.
There are five views of one subject and many others around here that could be possibly bring something new in his interpretation of music from Process of Guilt.
Derivative in its way, none of the interpretations is "leaning" to the original, here and there is a line of guitars, a drum beat "withdrawal" from the original, but in essence, everything is deconstructed and created a new musical base.
We are therefore far from land on which we normally see the quartet move, but they are still barren, eroded by the action of the elements, to listen, bluntly.
Who was looking for the successor of "Ocean Remixes /reinterpretations" of Isis, or any work of Jesu, may well find it here, before it runs out! (15/20)

sábado, 22 de janeiro de 2011

Raventale - After (2010)

Os Raventale, ou melhor Astaroth, continuam a trilhar o seu caminho a seu bel-prazer. Pois bem, esta review poderia terminar por aqui e quem quisesse que buscasse respostas neste novo EP do projecto (do) ucraniano...
Depois de em 2009, com "Mortal Aspirations", registarmos uma viragem brusca na sua sonoridade, com interlúdios ecléticos e temas numa toada bem doomy, com a proposta "After" temos um cimentar desta posição a que se pode juntar umas breves incursões por momentos verdadeiramente melancólicos - ali para o meio de "Gone", está o melhor exemplo -, que servem de banda-sonora a cenários cinzentos, carregados, com uma tundra salpicada pela neve que vai caindo a medo, esmagando-se mal toca o solo.
Este, é um trabalho bem centrado nas guitarras, com alguns teclados planantes e toda esta massa sonora suportada por um trabalho rítmico coeso e forte, dando a estes cinco temas uma força assinalável. Somente o tema-título deste trabalho é que foge ligeiramente ao conjunto sonoro, indo buscar algumas reminiscências Black, mas sempre bem incorporadas na composição mais cuidada e trabalhada; não há por aqui grandes espaços para estruturas musicais muito complexas ou exercícios que puxem até à exaustão as músicas ou algum virtuosismo, como muitas vezes assistimos e que se torna dispensável. Este, sim, encontra-se disperso pelos 35 minutos de duração do EP, demonstrando que os Raventale podem, e muito bem, serem uma proposta bastante válida, num panorama onde a música lenta parece estar a gozar de um hype que há muitos anos se não via.
Sem deslumbrar ou inovar, apenas criar bons temas; e isso chega, às vezes. (14/20)

English:
Raventale, or better Astaroth, continue to walk your way to your heart's content. Well, this review could end here and who wanted to seek answers in this new EP from this ukranian project just go ahead.
Once, in 2009, with "Mortal Aspirations" registered a sharp turn in their sound, with interludes and eclectic themes in a very doomy melody; now, with the proposal "After" we have a reinforce position for which you can add a few brief forays by moments truly melancholic – there in the middle of “Gone”, is the best example which serve as a soundtrack to scenarios gray, loaded with a tundra dotted with snow that will fall to fear, crushing it scarcely, touches the ground.
This is a job well based on guitars, keyboards with some planing and all this sound mass supported by a cohesive and strong rhythmic work, giving these five issues a remarkable strength. Only the label theme of this work is that runs slightly audible to all, going to get some reminiscences of Black Metal, but always well incorporated in the composition and more carefully crafted, there is here great place for very complex musical structures or exercises that pull up to overtiredness songs or some virtuosity, as often witnessed and which becomes dispensable. This, yes is scattered by the 35-minute EP, showing that Raventale may, quite rightly, be a very valid proposal, in a scene where music seems to be slow to benefit from a hype that many years have not seen.
No glare or innovate, just create good themes, and it gets sometimes. (14/20)



Links: http://www.myspace.com/raventale
           http://www.solitude-prod.com/

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Catacombe - Kinetic (2010)

Se olharmos com um pouco de atenção para o cenário metálico português, torna-se por demais evidente que, ao longo destes últimos anos, o número de bandas/projectos aumentou consideravelmente e que gozam de alguma exposição, pelo menos a nível interno com os regulares concertos que são organizados e a facilidade de gravação que hoje existe; por outro lado, dessa miríade de bandas, nota-se uma significativa ausência de trabalhos que se enquadrem na esfera em que se movimentam estes Catacombe: Post Rock/Metal. Polémicas e discussões à parte, o facto é que a década que findou ficou marcada indelevelmente por este tipo de sonoridade, muito por culpa (no bom sentido, está claro!) de nomes como Isis, Pelican, Neurosis, Explosions In The Sky ou Mono, antes de atingir um ponto que se aproxima muito rapidamente da saturação e onde, no futuro, somente a qualidade prevalecerá ou então quem soube trilhar a pulso o seu caminho.
Os nortenhos Catacombe, serão um dos poucos exemplos portugueses a enveredar por este tipo de sons, e após o lançamento do seu registo de estreia, o EP "Memoirs", em 2008, causaram algum burburinho, não só pela qualidade dos seus temas, mas também pela partilha de palco com nomes como os Minsk ou os Nadja; efeito sintomático, portanto.
O que, inicialmente, era um projecto a solo de Pedro Sobast, rapidamente evoluiu para o formato banda e é esse mesmo formato que apresenta hoje "Kinetic" (apesar de tudo estar sob a batuta de Sobast), o seu primeiro longa-duração, composto por sete temas que mais não são do que um desfiar de emoções, uma pintura sobre uma tela nua, que nos vai transportando por diferentes ambientes, cada um com a sua cor, ora mais doce e cândido, ora mais agreste. No fundo, o que aqui temos é o passo seguinte à estreia, só que recheado de temas com muito boa qualidade; novidades a nível musical aqui não abundam, mas nem sempre os bons discos se demarcam dos demais pela originalidade, mas sim por que são... bons! As influências continuam lá, mais ou menos esbatidas, consoante a obra de arte vai ganhando forma, sob a paleta de comando de seis cores nas mãos de Sobast. "Anna-Liisa", "Cavalgada Épica" ou "Mockba" serão as melhores pinceladas neste quadro belo, abstracto, mas onde as emoções são quase palpáveis. (16/20)

English:
If we look with a little attention to the Portuguese metal scene, it becomes obvious that, over recent years, the number of bands/projects has increased dramatically and that have a certain exposure, at least at home with regular concerts that are organized and ease of recording that exists today, on the other hand, this myriad of bands, there is a significant lack of works that fall within the sphere in which they move Catacombe: Post Rock/Metal. Discussions and polemics aside, the fact is that the decade just ended was indelibly marked by this kind of sound, much to blame (in a good way, of course!) names like Isis, Pelican, Neurosis, Explosions In The Sky or Mono before reaching a point rapidly approaching saturation, and where, in future, only quality will prevail or else who knew the pulse walk your way.
The northerners Catacombe will be one of the few portuguese examples to embark on this kind of sounds, and after the release of their debut recording, the EP "Memoirs" in 2008, caused some buzz, not only by the quality of his songs, but also by sharing the stage with names like Minsk or Nadja; symptomatic effect, therefore.
What initially was a solo project of Peter Sobast, quickly evolved into the band format and this is the same format that presents today "Kinetic" (after all be under the baton of Sobast), his first long-duration, composed by seven themes that are no more than a shred of emotion, a painting on a canvas bare, we will by carrying different environments, each with its color, sometimes more sweet and innocent, sometimes more harsh. Basically, what we have here is the step following the premiere, filled with themes that only with very good quality; news on music here not plentiful, but not always the good disks to demarcate the other for originality, but because they are ... good! The influences are still there, more or less blurred, depending on the artwork takes shape, under the command palette of six colors in the hands of Sobast. "Anna-Liisa", "Epic Ride" or "Mockba" will be the best strokes in this beautiful picture, abstract, but when emotions are almost palpable. (16/20)

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Olde Crone - Olde Crone (2009)

Os Olde Crone já não o são. Pouco depois do lançamento deste seu álbum de estreia cessaram funções, o que não deixa de ser estranho visto que as sete músicas que perfazem este "Olde Crone" são boas, revestidas de Stoner/Doom Metal sem grandes floreados, inspirados numa cartilha que nos remete para o enorme legado "sabbathiano", para uns Pentagram e também Electric Wizard - quando lhes dá para o lado psicadélico -, ou Pombagira, por exemplo.
Assim, sem estarmos perante o disco que irá revolucionar as nossas vidas, mas tão somente um bom trabalho que nos irá fazer passar um bom bocado enquanto o ouvimos, à medida que uma boa mão cheia de cervejas desaparece goela abaixo, podemos dizer que este quarteto britânico soube construir temas longos, sóbrios (ou ébrios, conforme os gostos), com algum músculo, com alguns riffs engraçados, mas onde existiu sempre espaço para algum devaneio, com uma piscadela de olho ao Southern Rock, improviso, fugindo aos pergaminhos que ditam a estruturas das canções; eles fizeram um bocado o que lhes deu na real gana, foi o que foi! E isso será sempre de valorizar. "Blue Iris" ou "Olde Crone (Chapter 2)" são reflexo disso mesmo, principalmente no segundo exemplo, onde a par de riffs que tresandam stoner por todos os poros convivem harmoniosamente com passagens acústicas, com um leve travo a Oriente, deixando-nos a pensar sobre as misturas que ainda faltam fazer na música, no Metal mais especificamente. Não, não é que aqui haja algum tipo de novidade! O discorrer do álbum proporciona isso mesmo, essa leve introspecção, por entre os ritmos cadenciados e a tender para o lento e as guitarras duras nos seus main riffs e, igualmente, languidas nas fases mais experimentais.
É pena que, por ora, não tenhamos mais novidades desta banda, porque esta viagem teve piada e gostaríamos de repetir a dose... com novos temas.
Entretanto, abre-se mais uma cerveja (repeat mode on). (14/20)

English:
The Olde Crone already are not. Shortly after the release of their debut album had ceased to function, which does not cease to be odd since the seven songs on this "Olde Crone" being good, coated with Stoner/Doom Metal without major frills, inspired by a booklet that brings us to the enormous sabbathian legacy, and also for some Pentagram and Electric Wizard - when they give to the psychedelic side -, or Pombagira, for example.
Thus, if we were to the disk that will revolutionize our lives, but only a good work we do will have a good time while we hear, as a handful of good beer disappears below the throat, we can say that this british quartet able to build long themes, sober (or drunk, according to taste), with some muscle, with some funny riffs, but where there is always room for a daydream, with a wink to Southern Rock and improvisation, fleeing to the scrolls that dictate the structure of the songs, they did a bit which gave them the “real Ghana” (portuguese expression), was what it was! And it will always be of value. "Blue Iris" or "Olde Crone (Chapter 2)" are a reflection of this, especially in the second example, where the pair of loops that stink from every pore stoner live harmoniously with acoustic passages, with a slight bitterness in the East (!) , leaving us to think about the mixes that have yet to make music, or more specifically in the metal. No, it is here that there is some kind of novelty! The course of the album provides just that, this mild introspection, amid cadenced rhythms and tends to slow and the hard guitar riffs in their main and also faint in most experimental phases.
It is unfortunate that, for now, we have no more news of this band, because this trip was funny and would like to repeat it ... with new themes.
However, it opens another beer (repeat mode on). (14/20)

domingo, 26 de dezembro de 2010

Ophis - Withered Shades (2010)

Os mais incautos que derem de caras com este "Withered Shades" irá pensar que estamos perante mais um projecto de Black Metal; a imagem da capa, as cores e o pentagrama invertido poderão sugerir isso mesmo.
No entanto, estes germânicos movimentam-se pelos meandros do Doom/Death Metal, com alguns pózinhos de Funeral de quando em vez, e lançaram este ano o seu segundo álbum.
Quem acompanha a carreira da banda desde os tempos da demo "Empty, Silent And Cold", certamente terá registado uma notável evolução qualitativa no som e nas estruturas dos temas, como que num crescendo, ouça-se "Pazuzu" presente na referida demo e no registo de estreia e as diferenças saltam logo à vista; na primeira, onde se verifica um tom ainda naif, enquanto que em "Streams Of Misery" o som e poder da mesma encostam-nos à parede, após aquela intro deliciosamente escabrosa, deixando-nos atordoados após esses dolorosos minutos que são da mais rica qualidade exposta nesse registo.
Três anos depois, os Ophis chegam-nos com mais uma mão cheia de temas que se regem, grosso modo, pela mesma linha orientadora, embora aqui se note uma maior propensão para uma exploração até à exaustão de algumas linhas de guitarra e bases rítmicas - não sendo, desta forma, de estranhar que a maioria destes novos sons andem bem acima da dezena de minutos -, mas ao mesmo tempo, mostrando uma capacidade de composição mais refinada, na linha evolutiva que já falámos, aproximando-se, em alguns momentos de momentos mais melódicos que nos fazem lembrar os Swallow The Sun, por exemplo. A generalidade dos temas aposta em ritmos bem lentos, quase funéreos - ouça-se "Earth Expired" -, abrindo mais uma porta na abordagem musical que poderá trazer uma mais-valia para o som destes germânicos.
"The Halls Of Sorrow",  irrompe pelas colunas e quase que resume todos os 45 minutos seguintes; evidencia que esta banda está, no seu todo, num patamar superior. Não há falhas a registar, a máquina está bem oleada e coesa, há tempo para momentos de calmaria e outros de maior rispidez,sempre em doses equilibradas, ou seja, antevemos uns Ophis a caminho de um amadurecimento musical significativo, com uma personalidade bem vincada, um som bem definido e, acima de tudo, a garantia de trabalhos de qualidade acima da média.
Haja alguém que os traga cá para comprovarmos isso mesmo! (17/20)

English:
The most exclusive of unsuspecting people who face this "Withered Shades" will think that this is another project of Black Metal. The image of the cover and the booklet in general, the colors used and the inverted pentagram may suggest that.
However, these Germans move up the meanders of the Doom/Death Metal, with some of Funeral powder, and released their second album this year.
Those who follow the band's career since the days of the demo "Empty, Silent And Cold", will certainly have registered a remarkable evolution in sound and qualitative structure of the themes, like a crescendo - listen "Pazuzu," present at the demo and first album and the differences immediately appear, at first, where there is an even naive while in "Streams Of Misery" sound the same power and lean on the wall. After the intro delightfully scabrous, leaving us stunned, all those painful minutes of the richest quality are related in that register.
Three years later, the Ophis get us over a handful of themes that are governed roughly the same guideline, but here we note a greater propensity for a farm to exhaust some guitar lines and rhythmic foundation - is not thus surprising that most of these new sounds and to walk up ten minutes - but at the same time, showing a capacity of more refined composition, in the evolutionary line that we talked about, coming up on some good points more melodic moments that remind us Swallow The Sun, for example. A majority of bets on themes and rhythms slow, almost funereal - listen to "Earth Expired" - opening the door in a more musical approach that can bring added value to the sound of these Germans.
"The Halls Of Sorrow," which opens the album, after a slow start captivating, erupts from the speakers on full plenitude of his power and that sums up almost all 45 minutes; shows that this band is on the whole, a higher plateau. No failures to record, the machine is well oiled, cohesive, there is time for moments of calm and others sharply higher doses always balanced, ie each Ophis anticipate the path of a meaningful musical maturity, with a personality and stark, a defined sound and, above all, ensuring quality work above average.
There is someone who brings them to our holy ground, to give you an idea about it! (17/20)