domingo, 20 de novembro de 2011

An Evening [Before The Rain] + Corpus Christii (Apresentação de 'Frail')

Quem teve a oportunidade de se deslocar à República da Música, em Lisboa, no passado dia 10 de Novembro, certamente que não terá dado o seu tempo por mal empregue. O facto de se tratar de uma quinta-feira, não terá pesado em demasia na turba que se deslocou a este espaço, em Alvalade. Afinal, tratava-se da apresentação do álbum de uma das melhores propostas nacionais ao nível do Metal, ‘Frail’ o segundo longa-duração dos [Before The Rain].
Perante uma boa moldura humana, a banda arregaçou as mangas logo desde o início, no intuito de demonstrar e explanar o poder e a qualidade das propostas que, actualmente, tem entre mãos. Arrancando com ‘Somewhere Not There’, faixa presente no split com os finlandeses Shape Of Despair, o quarteto mostrou claramente ao que vinha, suportado por um som equilibrado e coeso de entre o qual sobressaíram os solos de Valter Cunha e a voz de Gary Griffith.
Dado o mote para uma actuação que primou pela segurança, ‘Frail’ começou a ser debitado, do qual se destacam as prestações para ‘Shards’, ‘A Glimpse Towards The Sun’ ou a belíssima ‘Breaking The Waves’, temas que foram sendo “atirados” ao público com uma nua e crua subtileza, desarmante para quem tem vindo a conviver com estes temas da há algum tempo a esta parte. Canções maduras, distantes de ‘One Day Less…’, aqui unicamente representado por ‘Wounds Of Rejection’, canções que buscam outras e novas paragens, tanto a nível musical como ao nível dos temas explorados nas letras.

       
         
A coroar uma exibição muito bem conseguida, ‘And The World Ends There’, antecipada por um “we’re gonna play it long and we’re gonna play it slow”, pela voz de Gary Griffith, que ao longo dos quase 80 minutos de concerto encarnou na perfeição estes temas, dando-lhes uma vívida carga expressiva, tornando-se em mais um ponto favorável para a banda.


Agora com três guitarras, pontificadas pelo trabalho, ora em tons de uma limpidez quase dolente ora explodindo em riffs fortíssimos, de Valter Cunha, dono de alguns dos melhores feedbacks ouvidos durante muito tempo, Carlos Monteiro e Gary Griffith; toda esta estrutura musical encontra-se suportada por uma secção rítmica que se apresentou segura e oleada, aguentando firmemente nas cordas do pulsante baixo de Pedro Daniel e nos ritmos cadenciados e marcantes de Joaquim Aires, contribuindo para o resultado final bastante positivo e deixando um excelente prenúncio para as seguintes datas que se avizinhavam.

             

Na primeira parte desta apresentação, estiveram os Corpus Christii, que aproveitaram para apresentarem, por paragens lisboetas uma vez mais e após a digressão europeia realizada com os Inquisition, Revenge e The Stone, o seu mais recente registo, ‘Luciferian Frequencies’, novo marco de qualidade e perseverança de uma das certezas do black metal nacional, que é a banda de Nocturnus Horrendus.
Com enfoque nos dois últimos trabalhos de estúdio, foram destilados, com a acutilância que se lhes reconhece, temas como ‘Crystal Glaze Foundation’, ‘Deliverer Of Light ou ‘The Wanderer’, sem esquecer passagens por momentos mais antigos como ‘The Fire God’ ou ‘Constant Suffering’, marcando um agradável início de noite que se queria de emoções fortes.

Temple Of Doom Metal

Fotos: Temple Of Doom Metal

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Bong - Beyond Ancient Space (2011)

Esta banda de Newcastle, do ponto de vista discográfico, é, no mínimo, estranha! Senão vejamos: antes de lançarem o seu primeiro álbum ou outro registo em nome próprio, ou seja, por entre um conjunto de splits chegaram ao mercado dois álbuns ao vivo e, após o EP "Bethmoora", em 2008, uma compilação… de temas inéditos que versam em torno da temática "Easter Sunday". No seguimento de cada álbum, há sempre registos ao vivo subsequentes - após o disco "Bethmoora", de 2009, foram lançados quatro registos ao vivo! Não queremos com isto dizer que há modelos definidos ou pré-estabelecidos de promoção e/ou divulgação de projectos, somente salientamos a estratégia atípica no caso particular dos Bong.
Quem passar umas horas pela discografia da banda, não negará o seu gosto pelo palco e, sobretudo, o gosto em poder legar as experiências das suas actuações, mostrando que esta não é uma banda de canções, mas antes de jam sessions e quer os registos de estúdio quer as performances ao vivo demonstram essa vertente deste quarteto.
Assim, este "Beyond Ancient Space", do alto dos seus quasi 80 minutos, divide-se em três longas jams e, comparativamente ao passado, as coisas mantêm-se sem grandes alterações, no mesmo patamar, onde para além da duração dos temas continuar a ser levada ao extremo - talvez aqui ainda um pouco mais -, continuam os ritmos ultra-lentos, as atmosferas que misturam uma densidade obscura com um misticismo com leve travo a oriente, muito por culpa de um Mike Vest que aqui marca um belo, mas discreto, trabalho de guitarra e de uma presença bem mais notória do trabalho de Ben Freeth na cítara e shahi baaja, enquanto Dave Terry encarrega-se de vocalizações que mais lembram cânticos no mais profundo êxtase ao mesmo tempo que retira das cordas do seu baixo os sons que conferem o ar mais doente deste registo.
Aqui, não iremos encontrar um golpe de génio como foi a versão de "Set The Controls For The Heart Of The Sun", mas antes um puxar para diante o som dos Bong, ir ao limite, sem macular a sua identidade e sonoridade. Mas falta qualquer coisa que o torne realmente empolgante.
Quem conhece, vai gostar, certamente. Quem tomar contacto com a banda através deste álbum, torcerá o nariz ou então levará o seu tempo a incorporar mais esta experiência sónica. (12.8/20)


English:
This band from Newcastle, in terms of discography releases, is a little bit strange. Consider this: before their first album or other record on their own behalf, not through a set of splits, entered the market with two live albums, and after the EP 'Bethmoora' in 2008, a compilation of... unpublished songs, dealing around the 'Easter Sunday' theme. Following each album, there is always subsequent live records - after the disc 'Bethmoora', 2009, were released four!
This is not to say that there are defined pre-established guidelines for promoting and/or disclosure projects, we are only emphasizing the atypical strategy in the particular case of Bong.
Those who spend a few hours with the band's discography, cannot deny their taste for stage performances, and especially likes to bequeath their experiences of their concerts, showing that this is not a band of songs, but a jam session one and studio records or live acts demonstrate this aspect of this quartet.
Thus, 'Beyond Ancient Space', from the top of its almost 80 minutes, divided into three long jams, and compared to the past, one say that things remain without major changes, where beyond the length of the tracks continue to be taken too far - maybe a little more here - still the ultra-slow rhythms, atmospheres that blend an obscure density of mysticism with a slight oriental aftertaste, much by the fault of Mike Vest’s beautiful guitar work, and a more visible presence and the work of Ben Freeth on the sitar and shahi baaj, while Dave Terry is in charge of vocalizations that are more reminiscent of songs in the deepest ecstasy while off the strings of his bass the sounds extracted give us the sickest parts of this record.
Here, we will not find a stroke of genius as the version of 'Set The Controls For The Heart Of The Sun', but a pull on the Bong’s sound, going to the limit, without tarnishing his identity and sound. But there is something missing that makes it really exciting.
Who knows, you'll like, indeed. Those who make the first contact with the band through this album, will twist the nose or will need lots of time to incorporate this latest sonic experience. (12.8/20)

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Lançamento Oficial de 'Frail' - [Before The Rain]


'Frail', um dos álbuns mais marcantes do panorama metálico português, e do espectro do Doom Metal em particular, para este ano de 2011 irá ter a sua festa de apresentação no próximo dia 10 de Novembro, na República da Música, em Lisboa, com o início das actuações prevista para as 21:30 horas.
A par dos [Before The Rain], que irão realizar um concerto único em Portugal de divulgação a este mui aguardado trabalho, teremos os lisboetas Corpus Christii como convidados especiais.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Under The Doom Metal Fest (2011)


No próximo dia 22 de Outubro irá realizar-se o "Under The Doom Metal Fest", no Side B, em Benavente.
O cartaz é composto por 5 bandas, duas delas internacionais, os Solar Flare e os Rorcal, ambos provenientes da Suíça, dois projectos nacionais, os Why Angels Fall e os Insaniae e os Mother Of The Hydra que conta no seu lineup com elementos portugueses e suecos. Estes últimos, enquadram a sua sonoridade na linha do Black Metal.
Esta será mais uma noite dedicada ao Doom Metal, no seguimento do Major Label Industries Festival, levado a cabo em Março deste ano e que reuniu os Process Of Guilt, Mourning Lenore, Löbo e os Insaniae.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Dutch Doom Days X (2011)

Na décima edição do 'Dutch Doom Days', que se realizará entre 11 e 13 de Novembro, em Baroeg, próximo de Roterdão, regista-se a presença de duas bandas portuguesas: os açorianos A Dream Of Poe e o setubalenses Before The Rain.
Os A Dream Of Poe, lançaram no início deste ano o seu primeiro álbum, 'The Mirror Of Deliverance' e marcarão presença no primeiro dia do festival, enquanto o Before The Rain subirão ao palco no dia 12 e, certamente, o ponto central da sua actuação será  a novidade 'Frail'.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Abstract Spirit - Horror Vacui (2011)

Funeral Doom Metal, movimento III! 2011 vê o regresso dos moscovitas Abstract Spirit com mais um álbum, após a estreia 'Liquid Dimensions Change', de 2008, e 'Tragedy And Weeds' no ano seguinte. Quem já se cruzou - ou melhor, foi abalroado! -, com a sonoridade deste trio já sabe muito bem com o que pode contar, bastaria ler a primeira frase deste texto. Para os 'novatos', este 'Horror Vacui' acaba por ser a descoberta da banda no se u passo seguinte, ou seja, não é o aprimoramento da fórmula, com retoques aqui ou ali, mas um aprofundamento da sonoridade, com algumas novas tonalidades até aqui pouco exploradas.
A meia-dúzia de temas, mais o interlúdio de faceta ambiental 'Vigilae Mortuorum (Interludium)', que fazem parte deste trabalho parecem ainda mais lentos e guarnecidos de uma dimensão épica. Essa impressão fica logo patente na abertura, com 'Beyond Closed Eyelids', onde a par dos riffs imensos e incomensuravelmente pesados de M. Hater e da voz gutural cortesia de I. Stellarghost, surge uma maior incorporação de teclados e passagens de piano, permitindo aos temas respirarem da sua hipnótica e lenta violência, o que proporcionará ao ouvinte, por conseguinte, algum tempo para recuperar o fôlego antes de voltar a ser engolido por esta massa sonora gigantesca.
Ao longo deste 70 minutos, cai sobre nós uma negritude funérea, criando uma atmosfera doentia, comiserável, um monumento que se constrói lentamente, numa subtil e arrepiante progressão, dantesco que esbarra na nossa frente, deixando-nos com uma sensação de mal-estar perturbadora. Os coros, quais lamúrias desta ode mortífica, funcionam como leves bálsamos, momentâneos, ao longo deste trajecto por hediondas paisagens.
Este álbum resulta como um só, rochedo indivisível, esmagador, quer pela sua coerência estilística e sonora mas, também, pela cadência que os próprios temas têm, entrelaçando-se uns nos outros bastante naturalmente. Apesar disso, algo mais ressalta ao escutarmos 'Post Mortem' e 'Pulse'.
'Horror Vacui', não sendo um trabalho perfeito, nem inovador, tem no condão da sua coesão e poder sonoro e estilístico a capacidade de afirmar os Abstract Spirit como uma das melhores bandas do segmento na Rússia e na Europa, capaz de poder vir a ombrear com os alemães Ahab.
Por nós, os últimos 70 minutos do Apocalipse já têm banda-sonora. (16.3/20)

English:
Funeral Doom Metal, movement III! 2011 sees the return of Moscow Abstract Spirit with another album after the debut ‘Liquid Dimensions Change’, in 2008, and ‘Tragedy And Weeds’ in the next year. Anyone who has ever crossed - or rather, was rammed! - with the sound of this trio, knows quite well what can count on, just need to read the first sentence of this text. For the 'newbie’s', this 'Horror Vacui' turns out to be the discovery of the band at their next step, specifically, not on improving the formula, with touches here and there, but looking forward for a deeper sound with some new ideas up till now little explored.
The half-dozen tracks, plus the ambiental interlude 'Vigilae Mortuorum (Interludium)', which are part of this work seem even slower and look a bit more epic. This impression is immediately evident in the opening song, "Beyond Closed Eyelids', where side by side with immense and immeasurably heavy riffs, played by M. Hater and deep guttural voices courtesy of I. Stellarghost, there is a greater incorporation of keyboards and piano passages, allowing those songs to breathe from their slow and hypnotic violence, which will provide the listener, therefore, time to catch his breath before returning to be swallowed by this huge mass of sound.
During these 70 minutes, falls upon us a funereal blackness, creating an unhealthy atmosphere, miserable, a monument that is built, slowly, in a subtle and chilling progression, in a Dantesque way that collides against our senses, leaving us with a feeling of malaise disturbing. The choirs, which laments along this deadly ode, act as light balms, momentary, along this route by hideous landscapes.
This album turns out as one, indivisible rock, overwhelming, both for its consistency of style and sound but also by the cadence that have their own tracks, weaving them into each other quite naturally. Yet, we need to emphasize 'Post Mortem' and 'Pulse'.
'Horror Vacui', not being a perfect record, or innovative, has the knack to show a very intense cohesion and power of their sound and stylistic ability to affirm Abstract Spirit as one of the best bands in the funeral segment in Russia and in Europe, capable of being able to comparable with the Germans Ahab.
For us, the last 70 minutes of the Apocalypse have already a proper soundtrack. (16.3/20)

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Wreck Of The Hesperus - Light Rotting Out (2011)

Ao longo dos anos em que os irlandeses Wreck Of The Hesperus têm estado em actividade, habituamo-nos a duas coisas: primeiro, a trabalhos extremos. Segundo, a não sabermos quão extrema poderá ser a novidade que se segue por parte deste trio atormentador de almas. Tem sido assim desde a demo 'Terminal Dirge' ou, se preferirem, do EP 'Eulogy For The Sewer Dwellers' e o seguintes lampejos de actividade são a prova que a banda de Dublin reforça a sua postura no panorama metálico irlandês e europeu.
Chegados a 2011, os três temas que compõem este 'Light Rotting Out' confirmam o exposto e, também, o aumento do grau de insanidade musical e visceralidade patente em cada descarga musical ou vociferada por AC Rottt. O podredo instala-se ao longo destes 40 minutos, em doses colossais, directas e incisivas, como são os casos de 'Kill The Monument' e 'Cess Pit People'. O terceiro e último tema, 'The Holy Rheum', dividido em duas partes, é ligeiramente mais comedido - na falta de um termo mais adequado -, onde há espaço para dar largas à introdução de um saxofone em 'I - Night Of Negative Stars', adensando o clima doentio já existente e à presença, discreta mas magnânime no seu tom muito pregadordoapocalipse, de Albert Witchfinder, na segunda parte, 'II - Hologram Law', onde a letra mais não é do que uma adaptação do Salmo 102. Apesar disso, em nada se desprende dos dois primeiros assombros, mostrando que 'Light Rotting Out' é, na nossa opinião, o trabalho mais conseguido da banda e que os pode anunciar como um dos projectos cimeiros das correntes mais extremas das franjas do Doom Metal. Dizer que estamos perante Funeral Doom é bastante redutor, pois aqui abraçam-se estilos como o Sludge mais sujo e bruto e Ambient/Drone, conferindo um tom algo apocalíptico e obscuro às músicas.
A par dos Murkrat, este poderá ser um dos álbuns que mais nos chamou à atenção ao longo deste ano e, curiosamente, chegam ao mercado com o selo da britânica Aesthetic Death, que preparou um artwork bem especial para este trabalho, digno de peça de colecção. (17.5/20)

English:
Over the years, the Irish Wreck Of The Hesperus accustomed us two things: first, to wait for extreme records. Second, we do not know how extreme can be a novelty from this tantalizing trio of souls. It's been like this since the demo 'Terminal Dirge' or, if you prefer, the EP 'Eulogy For The Sewer Dwellers' and following flashes of activity are the proof that the band from Dublin strengthens its position in the Irish and European metal scene.
Arrived in 2011, the three themes that compose this 'Light Rotting Out' confirm the above and also the increased degree of musical insanity and visceral patent in each discharge or ranted by AC Rottt. This rotting sounds settles over the 40 minutes in huge doses, direct and incisive, as in the case of 'Kill The Monument' and 'People Cess Pit'. The third and last song, 'The Holy Rheum', divided in two parts, is slightly more restrained – in the lack of a better term - where there is room for unlocking the introduction of a saxophone in 'I - Night Of Negative Stars ', densifying the existing unhealthy climate and the presence, quiet but very magnanimous in their tone of preacheroftheapocalypse, Albert Witchfinder, in the second part,' II - Hologram Law ', where the lyrics are nothing more than an adaptation of Psalm 102. Nevertheless, it doesn’t comes off the first two astonishing tracks, showing that 'Light Rotting Out' is, in our opinion, the band's most accomplished work and that can advertise as one of the top list of current projects of the more extreme fringes of Doom Metal . To say that we are facing a Funeral Doom album is very reductive, because here they embrace styles like Sludge, the rude and gross, or Ambient/Drone, giving a somewhat apocalyptic and obscure tone to the songs.
Together with Murkrat, this may be one of the albums that most caught our attention this year and, interestingly, achieves the market with the seal of the British Aesthetic Death, who prepared a very special artwork for this work, worthy piece of collection. (17.5/20)

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Sceptic Mind - The Begining (2010)

Às vezes, somos confrontados com álbuns que nos colocam em sentido desde o primeiro momento em que tomamos contacto com eles; em outros casos, vão ganhando o nosso respeito e conquistam-nos aos poucos; depois, existem os suportáveis e os irrelevantes. Foi durante a audição do tema de abertura e que dá título a esta segunda proposta que nos chega da Rússia, que nos demos a pensar nesta forma de encarar - ou hierarquizar - a nossa relação com os trabalhos que vamos ouvindo e conhecendo e percebemos que neste caso específico, e depois de ouvir estes três temas colossais, que os Septic Mind tomam conta dos nossos sentidos de uma forma tão bruta e fria que nos deixa completamente aturdidos. O que brota das colunas não é somente funeral doom, mas um conjunto de linhas atmosféricas que nos rodeiam e nos absorvem de tal maneira que nos sentimos no meio de uma tempestade que pára ao fim dos 60 minutos de duração deste registo; uma tempestade que nos vai fustigando, lenta e gélidamente, percorrendo espaços desoladores e inóspitos e mostrando-nos uma negritude espessa como breu.
Perante um cenário destes, está claro que os Esoteric saltam logo para a linha da frente, mas não podemos esquecer uns Pantheist ou mesmo os seminais Thergothon.
'The Begining' contém um trio de temas que prega o Apocalipse, mas de uma forma docemente brutal, embalando-nos durante os seus momentos mais calmos e contemplativos, para depois esmagar-nos sem contemplação ou amistosidade. 'The Misleading' contém nuances que nos lembram os crescendos muito característicos do post-rock/post-metal; e não é que sabem bem aqueles doze minutos antes da entrada da voz gutural de Michael Negiev, como um vento frio que nos bate no corpo e acorda para a dureza e crueza que a música contém. Achamos que após isto tudo, será escusado dizer o que este álbum provocou neste ouvinte. (17.4/20)

English:
Sometimes we are confronted with albums that put us standing straight since the first moment we contact them; in other cases, they gain our respect and conquer us slowly; finnaly, there are the bearable and irrelevant ones, too. It was while we were listening the opening track, and at the same time the title of this second proposal that comes from Russia, that we found ourselves thinking on the way we face - or rank - our relationship with the records that we hear and know and realize that in this specific case, and after hearing these three huge songs, the music of Septic Mind preempt our senses in a way so raw and cold that makes us completely flummoxed. What flows from the speakers is not only funeral doom, but a set of atmospheric lines that surround and absorb us so deeply that we feel in the midst of a storm that goes away only after the 60 minutes of this record; a storm that goes on beating, slowly and icily, traversing bleak and inhospitable places and showing us a thick pitch-blackness.
Of course, with such a scenario like this one, it is clear that the Esoteric jump straight to the front line, but we cannot forget Pantheist or even the seminals Thergothon.
'The Beginning' contains a trio of tracks that preaches the apocalypse, but in a brutal gently way, lulling us during their quiet and contemplative moments, and then crush us without contemplation or friendliness. 'The Misleading' contains nuances that remind us of the very characteristic post-rock/post-metal crescendos, and feels really good those twelve minutes before the entrance of the guttural voice of Michael Negiev as a cold wind that hits us in the body and awakes us to the hardness and ruthlessness that this music contain. We think that after all this, is needless to say which sensation this album has caused in this listener. (17.4/20)

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Monads - Intellectus Iudicat Veritatem (2011)

Por vezes, torna-se difícil entender o que nos impele a escrever sobre alguém ou alguma coisa. Na música, o cenário é semelhante, no nosso caso particular. Acresce que, ao longo dos últimos anos, temos sido confrontados com uma quantidade abissal de novos lançamentos que nos chegam em catadupas semanal ou mensalmente, muitos deles com qualidade e assim cativando a nossa atenção, esquecendo tudo à volta, nem que seja por algumas horas.
Os belgas Monads conseguiram-no com a sua demo de estreia 'Intellectus Iudicat Veritatem'. Composta por cinco longos temas, que andam a vaguear por entre o Doom/Death e o Funeral Doom (embora a banda indique a sua sonoridade como Post-Doom), com uma força e brutalidade sonora desarmante, capaz de varrer uma paisagem e deixá-la na mais profunda agonia e escuridão, inóspita. Um bom exemplo disso é o tema de abertura 'The Stars Are Screaming', onde somos confrontados, ao fim de poucos segundos, com essa realidade, um misto de Evoken, Esoteric e Mournful Congregation. Para além dessa vertente demolidora, há momentos de maior acalmia, onde nos é proporcionado algum tempo para respirar; 'Broken Gates To Nowhere' é prova disso, onde num lento e doce crescendo a paleta de cores do tema alarga-se para tonalidades mais claras e suaves, numa toada muito Post-Rock de uns Explosions In The Sky e que os mesmos não desdenhariam abraçar, certamente, desembocando num final que aglutina todas estas vertentes, dando-lhe uma certa aura épica, arriscamos dizer. Ou então, a passagem presente em 'Absent As In These Veins' que desemboca num final austero, duro, empolgante, que nos deixa zonzos e quando recompostos do atropelo, a primeira coisa que nos ocorre é premir novamente no play.
Apesar de estarmos a pisar solo já conhecido e largamente explorado ao longo destes últimos anos, temos que admitir que estamos perante um trabalho de estreia bastante consistente, coeso, com bons momentos e que vale muito pelo seu conjunto, sem sombra, por mais negra que seja, de dúvida. (16.3/20)

English:
Sometimes it is difficult to understand what leads us to write about someone or something. About music, the scenario is similar. Moreover, over the past years we have been confronted with an unfathomable amount of new releases coming out in waterfalls weekly or monthly, some of them with recognisable quality and so our attention is focused there, forgetting everything around, even for a few hours.
The Belgians Monads captured our attention with their debut demo 'Intellectus Iudicata Veritate'. Consisting on five long songs, that are left to wander amid the Doom/Death and Funeral Doom (though the band considers their sound as Post-Doom), with a muiscal force and brutality disarming, able to sweep a landscape and leave it in the deepest agony and darkness, inhospitable. A good example is the opening theme called 'The Stars Are Screaming', where we face, after a few seconds with this reality, a mix of Evoken, Mournful Congregation and Esoteric. Beyond this devastating side, there are moments of greater calm, where we are provided some time to breathe, 'Broken Gates To Nowhere' is proof of that, where a slow growing and sweet color palette theme extends to lighter shades and mild, in a very similar tune of some Post-Rock Explosions In The Sky and disdain that they do not embrace, of course, ending in a final that brings together all these aspects, giving it a certain aura of epic, I daresay. Or the passage in 'The Absent In These Veins' that ends in a final austere, hard, breathtaking, that makes us dizzy and when recomposed of the hustle, the first thing that occurs is to press the play button again.
While we are treading ground already well known and widely exploited over the last few years, we have to admit that this is a debut work fairly consistent, cohesive, with good songs and the whole is worth much without shadow, blacker than is, in doubt. (16.3/20)

Temple Of Doom Metal - II anos de lamentações


Há dois anos, principiamos esta aventura que tinha por objectivo dar um pouco mais de visibilidade a um estilo musical que, para além de nos ser particularmente grato, em Portugal parecia carecer de maior exposição; o apoio a projectos nacionais baseados na sonoridade do Doom Metal era uma das principais premissas que pautavam este projecto, igualmente.
Desde então, todo este processo foi sendo desenvolvido, fruto do empenho e trabalho das pessoas que se identificaram com o Temple Of Doom Metal e, mediante a sua disponibilidade foram contribuindo para que esta 'voz' não se calasse. Tudo decorreu de forma tranquila, ponderada, apesar de alguma inconstância, por vezes... nem sempre as águas foram calmas e os caminhos sempre se revelaram pedregosos. Caminho lento e penoso, afinal estamos a falar de Doom...
Hoje, tal como em 2010 e desde o dia em que foi criado, o Temple Of Doom Metal continua com a mesma ambição e similares objectivos mencionados. Os contactos com bandas alargaram-se, editoras, músicos e apreciadores deste género musical continuam a ser a fonte de energia e inspiração para que a caminhada continue. As surpresas, quase sempre positivas, deixaram-nos por vezes atónitos, talvez por uma manifesta capacidade de percepção do número de pessoas/bandas/labels que tomavam contacto com o blogue e nele viam algo com alguma qualidade ou, simplesmente e certamente, mais um veículo de divulgação do(s) seu(s) trabalho(s).
Por isso mesmo estamos aqui hoje, com um natural motivo de regozijo, mas acima de tudo para expressar que as portas do Temple Of Doom Metal continuarão a estar abertas, porque este lento doom ainda tem muito para vos oferecer.
Para finalizar, parafraseando umas linhas nossas: 'Por último, seria indecoroso não ser endereçada uma (enorme) palavra de homenagem a todos os que, desde o início, acreditaram que este projecto tinha pernas para andar e crescer, a todos os que têm participado, através das variadíssimas formas, na construção deste espaço e ao grupo que tem sido a alma do templo ao longo destes dois anos de actividade.
Por tudo isto e muito mais, o nosso sincero muito obrigado.'

Temple Of Doom Metal
Arrasta-te, lúgubre; a desilusão invade-te...

sábado, 27 de agosto de 2011

Yob - Atma (2011)

O ano de 2009 assistiu ao regresso dos Yob após um período bastante atribulado que passou pela extinção do projecto e levou à criação dos Middian - do qual resultou no lançamento do álbum "Age Eternal", em 2007 - e colocação de um ponto final na sua actividade, também, pouco depois, terminando com a reactivação dos primeiros, corria já o ano de 2008. Perante este frenesim num tão curto espaço de tempo, não foi de espantar que as expectativas fossem bem altas, por parte de todos aqueles que tomaram conhecimento do trabalho da banda de Mike Scheidt, por alturas do lançamento de "The Great Cessation", em 2009. A juntar a todas as razões atrás mencionadas, acrescentava-se uma sólida e progressiva ascensão da banda alicerçada em sucessivos longa-duração de reconhecida qualidade, desde os tempos de "Elaborations Of Carbon", de 2002.
Apesar disso, "The Great Cessation" revelou ser uma das melhores propostas do colectivo de Portland, cristalizando ao longo de cinco temas magistrais toda a sua fórmula, tornando-se num caso muito sério no domínio do Stoner/Doom Metal, sendo prova disso mesmo o duplo concerto na edição do ano passado do Roadburn Festival.
É desta forma, envoltos neste hype, que dois anos depois, chega aos escaparates o seu sexto longa-duração, "Atma" de sua graça.
Pois bem, a mão cheia de temas aqui presentes não traz muitas diferenças relativas ao passado; no entanto, as composições afiguram-se-nos mais directas, despindo-se de algum experimentalismo e sentido de jam session que anteriormente exalavam e conferiam, digamos, uma aura de transcendência às músicas. As malhas fortes, vibrantes na nossa cabeça, os ritmos lentos e demolidores continuam lá, suportando o timbre único de Scheidt, o que só por si, é a garantia de mais um trabalho avassalador, mas ao fim de algumas audições permanece a sensação que algo falta ali, de modo a ser equiparado ao seu antecessor ou a "Catharsis", por exemplo. Tudo está muito bom e muito certinho, mas isso é que é estranho e no meio desta estranheza ressalta a voz de Scott Kelly, na segunda metade de "Before We Dreamed Of Two", no meio da tormenta sonora, qual mão ou voz que acalma as grossas vagas, encaminhando-nos subtilmente para o centro do vórtice de onde somos cuspidos somente no final de "Adrift In The Ocean". Avassalador, sim, mas sem surpreender. (14.9/20)

English:
The year of 2009 saw the return of Yob, after a very busy process that conducted to the extinction of this project and led to the creation of Middian - resulting in the release of 'Age Eternal', in 2007 - and putting an end, too little then ending with the reactivation of the first band, during 2008. Along this frenzy in such a short time, it was not surprising that expectations were quite high, by all those who took contact with the work of Mike Scheidt's band, around the time of the release of 'The Great Cessation' in 2009. In addition to all the reasons mentioned above, added to a robust and progressive rise of the band supported in successive albuns with quality recognized since the days of 'Elaborations Of Carbon' in 2002.
Nevertheless, 'The Great Cessation' turned out to be one of the best proposals of the collective from Portland, crystallizing over five themes throughout his masterful formula, making it a very serious case in the field of the Stoner/Doom Metal, being proof of that the double concert at last year's edition of the Roadburn Festival.
In this way, wrapped in hype, which comes two years after the racking his sixth full-length, 'Atma' of his grace.
Well, the handful of songs do not present here many differences with the past, however, the compositions seem to us more direct, undressing a sense of experimentalism and jam session that previously exuded, like an aura of transcendence to the music. Strong riffs, vibrant in our heads, the slow and crushing rhythms are still there, standing the unique timbre of Scheidt, which alone would guarantee a record more overwhelming, but after a few auditions remains the feeling that something's missing there, so as to be compared to its predecessor or 'Catharsis', for example. Everything is very good and pretty straight forward, but that is what is foreign and strange in the middle of this strangeness the voice of Scott Kelly, appearing in the second half of 'Before We Dreamed Of Two', in the middle of this storm of sound, like a hand or voice that calms the enormous waves, subtly directing us to the center of the vortex where we are spit out only at the end of 'Adrift In The Ocean'. Overpowering, yes, but not surprising. (14.9/20)

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Megaphone - Entrevista a Mourning Lenore

No ano de 2010, os lisboetas Mourning Lenore foram uma das bandas portuguesas com mais hype na vertente do Doom Metal, tanto em Portugal como no estrangeiro, muito graças ao seu primeiro álbum "Loosely Bounded Infinities", lançado pela Major Label Industries, e às suas boas prestações em palco. Foi, após um desses últimos concertos, que estivémos à conversa com a banda, ainda antes das profundas mudanças de line up que, entretanto, sofreu.
O megaphone passa para a mão dos Mourning Lenore.


Entre a formação da banda e a chegada ao vosso primeiro álbum, houve um curto espaço de tempo. Como se desenrolou todo este processo até ao final de 2010, com um álbum como “Loosely Bounded Infinities” na mão?
João Arruda (JA): Bem, começamos a banda em 2008, após eu ter colocado um anúncio na internet e, rapidamente, apareceram os elementos que hoje compõem a banda. Foi muito engraçado, porque logo no início houve uma grande química, visto que foram os três primeiros elementos que responderam ao anúncio. De facto, as coisas aconteceram de forma bastante rápida.
Ainda nesse ano, começamos a gravação do split [NR: que foi lançado em 2009, em conjunto com os Insaniae]; sabíamos que era cedo, mas mesmo assim, decidimos arriscar. As reacções foram óptimas, não estávamos à espera que fossem tão boas. Aproveitamos o embalo e seguimos para o álbum.

No meio desta intensa actividade, onde entra a Major Label Industries neste processo?
João Galrito (JG): Numa linha de crescimento da banda, utilizámos o split para promoção junto de várias editoras e a que teve uma resposta mais positiva foi a Major Label Industries, que gostou muito do nosso trabalho, mas quis aguardar para ver como a banda iria evoluir e queriam ouvir mais alguns temas. Foi o que fizemos. Quando terminamos as novas músicas e as gravamos, enviamo-las para a editora e pronto…, basicamente foi um casamento feliz. Gostaram muito do nosso trabalho e resolveram lançar o nosso álbum.

E como têm sido as reacções, tanto em Portugal como lá fora, ao “Loosely Bounded Infinities”?
Emanuel Henriques (EH): As reacções têm sido positivas, tanto aqui como fora de portas, ainda que nos “acusem” de sermos um bocadinho jovens, mas é um argumento que tentamos utilizar da melhor maneira possível. Mas, basicamente, o feedback tem sido bastante bom, claramente acima das nossas expectativas, o que nos abre boas perspectivas para avançarmos para um segundo trabalho.

Uma prova dessas boas reacções foi o facto de o vosso álbum ter sido nomeado para a categoria “Best Doom Metal Album”, de 2010, no site da Metal Storm. Qual o impacto de uma nomeação dessas para banda e de notícias como esta?
JA: É claro que ficamos imensamente felizes pela nomeação, não estávamos, de todo, minimamente à espera. Eventualmente, com muita sorte, poderíamos figurar na categoria de Melhor Álbum de Estreia, porque para a primeira categoria estaríamos entre titãs, mas, mesmo assim, estamos extremamente satisfeitos e, ao mesmo tempo, acaba por ser um sinal que as coisas estão a correr bem além fronteiras. Estamos muito orgulhosos, sem dúvida.

Em trabalhos futuros, contam trabalhar novamente com o Fernando Matias, dado que no press release do álbum indicam que “equipa que ganha não se mexe”?
Joana Messias (JM): Bem, é sempre um pouco difícil dizer, com certeza, o que vamos fazer no futuro, mas, de facto tem sido muito bom trabalhar com ele [Fernando Matias], é uma pessoa com muita paciência, muita criatividade; nós gostamos muito da maneira como trabalha as nossas músicas, já faz parte da nossa equipa, mesmo. E, portanto, tudo indica que iremos continuar a trabalhar com o Fernando no seguimento de tudo o que tem sido feito até agora.



Em que medida é que o Fernando Matias vos ajudou a chegar ao som que podemos ouvir no “Loosely Bounded Infinities”?
JG: Basicamente, o Fernando tem vindo a construir uma reputação, como produtor e engenheiro de som, bastante sólida com os trabalhos que lhe passam pelas mãos e um dos pontos que, na nossa opinião, mais contribuíram para o nosso som foi a sua imensa capacidade de perceber rapidamente o tipo de som que encaixa na perfeição no tema em que está a trabalhar, ao longo de todo o processo de trabalho em estúdio; para além de conseguir dar os retoques finais que as músicas realmente precisam, dando-lhes uma grande coesão. Outra das suas qualidades é conseguir trabalhar muito bem ao nível do abstracto, em que a partir de uma simples ideia ou um som para uma determinada parte da música ou para um certo instrumento, mesmo dando-lhe dicas um bocado vagas, percebe onde é que queremos chegar e consegue fazer com que isso se torne possível.
JA: Uma outra coisa que, também, me parece importante: é que o Fernando não se prende a estilos musicais, é um produtor extremamente multi-facetado, sempre de mente aberta e isso foi essencial para nós, porque algumas pessoas acham que somos uma banda de Doom, um bocado colada a isto ou aquilo mas, na nossa óptica, gostamos de ir beber a diferentes fontes, o que se tornou essencial para atingirmos o nosso som.

O tema “Unchained” revela uma faceta mais experimental e com alguns elementos sonoros que fogem, um pouco, aos padrões com que foram rotulados. Acaba por ser uma porta que se abre para novas experiências no futuro?
JA: Nada é impossível. [risos]

Qual a vossa opinião relativamente ao panorama musical europeu, numa altura em que a informação corre a uma velocidade elevada, muito pela mão das novas tecnologias, possibilitando a divulgação dos Mourning Lenore e de outras bandas portuguesas, de uma forma exponencial? A noção que têm é a de que somos um país periférico, visto ainda como algo «exótico»?
JG: Nos anos 90, essa diferença era mais notória. Essa aura de «exótico» em torno de Portugal e de outros países mais periféricos, na Europa, e penso que algumas editoras assinavam bandas por isso mesmo, devido a esse factor «exótico», do ser diferente. Com a crescente velocidade de divulgação e exposição dos projectos, essas diferenças tenderam e tendem a diluir-se, do ponto de vista externo. No plano interno, ainda temos casos de pessoas e bandas que ainda persistem na mentalidade de que somos um país à parte; por isso, acho que muitas bandas poderiam expor-se mais além fronteiras e não o fazem por se deixarem levar nesta opinião de auto-comiseração. As opiniões que temos recolhido do exterior, em sites, fóruns e blogues, são: tudo o que chega de Portugal é bom. Mas, penso que por cá esse tipo de mentalidade está a mudar.

São da opinião que nestes últimos 3/4 anos se começou a construir, em Portugal, uma cena ligada ao Doom Metal?
EH: Acho que o último ano foi bastante fértil, de repente, parece que tocar Doom deixou de ser careta, porque sempre foi um primo afastado dos outros géneros dentro do Metal, por ser muito lento ou demasiado deprimente ou, então, porque, teoricamente, em termos técnicos não era tão exigente. Penso que no último ano apareceram muitas bandas, que já cá estavam há algum tempo, e tornaram-se um bocado mais visíveis. Na generalidade, este último ano foi muito bom para o Doom nacional.
JA: No estrangeiro, já se fala num movimento Doom português, da mesma forma que se fala do som de Gotemburgo, por exemplo. Não estou a comparar os estilos, somente estou a dizer que já se associa um tipo de som a um certo país, o que me parece muito bom, é sinal que estão a sair muitas coisas com qualidade por cá. Acho que não há qualquer dúvida que temos bandas muito boas, mesmo.

TODM: Para rematar, que projectos para o futuro dos Mourning Lenore?
JA: Ainda temos mais um concerto para dar e, depois, será uma incógnita. É tudo o que posso dizer.

(Gostaríamos de agradecer à Joana Cardoso a facultação das fotos e ao Side B todas as facilidades concedidas para a entrevista).

Temple Of Doom Metal


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Ab Reo Dicere (17.08.2011) - The Doom + Gniyrg Gnaarg + Wreck And The Reference

The Doom - 'Echoes To Chaos' (EP) (2008)

Trabalho de estreia para este projecto norte-americano, composto por meia-dúzia de temas crus, com uma produção minimal, resultando num som muito sofrível, a que se junta um conjunto de vocalizações tortuosas, roçando os uivos de um lobo faminto.
No cômputo geral, estamos perante um trabalho que precisaria de muitas melhorias para se tornar aceitável; aqui, salvam-se alguns riffs de guitarra e pouco mais. Underground? De facto. DIY? Cremos que sim! Mas o Doom para mostrar a sua força, poder e sentimento necessita de bem mais. (7/20)


English:

First release for this North American project, consisting of half a dozen raw themes, with a minimal production, resulting in a sound very poorly, which is compounded by a tortuous set of vocalizations, rubbing the howling of a hungry wolf.
Overall, this is a work that would need many improvements to become acceptable; here, save a few guitar riffs and little else. Underground? Indeed. DIY? We believe so! But  Doom needs much more to show its strength, power and feeling. (7/20)



Gniyrg Gnaarg - 'From Mother Sun' (demo) (2010)

A Finlândia tem sido um bom viveiro no que toca a bandas que resolvem abraçar as sonoridades mais doomescas, de entre as quais os Shape Of Despair, Skepticism ou Spiritus Mortis são um bom exemplo disso mesmo. Com "From Mother Sun", estes Gniyrg Gnaarg apresentam-se ao mundo. Uma demo com quatro músicas na linha do Doom mais clássico, mas com alguns trejeitos Stoner, mais patentes nos riffs de guitarra.
No entanto, os temas ainda surgem pouco coesos, pouco poderosos, com a voz a não encaixar bem - a necessitar de mais garra e melhor trabalho na integração das melodias - apesar de apresentarem uma estrutura complexa, o que acaba por ser um ponto positivo neste trabalho.
Ainda sem nada de relevante que justifique o seu nome na galeria do Hall Of Fame do Doom, estes Gniyrg Gnaarg poderão almejar outros voos, mas para isso será preciso mais transpiração e um pouco mais de inspiração. (8.5/20)

English:
Finland has been a good breeding ground when it comes to bands that decide to embrace the more doomed sounds, from which Shape Of Despair, Skepticism and Spiritus Mortis are good examples of this. With 'From Mother Sun', these Gniyrg Gnaarg presents their selves to the world. A four-song demo in line with the more classic Doom, but with some quirks Stoner, more patents in the guitar riffs.
However, issues still arise bit tight, with little power and the voice does not fit properly - needing more grip and better integration of work on the tunes - even if they have a complex structure, which turns out to be a positive point in this work.
Yet, nothing of relevance to justify its name in the Hall Of Fame of Doom, they may aim other flights, but this will require more sweat and a bit more inspiration. (8.5/20)



Wreck And The Reference - 'Black Cassette' (2011)

Dissonante e caótico, ou por outras palavras, não tem ponta por onde pegar este "Black Cassette! Realmente, a expressão "DIY" faz aqui todo o sentido. Há Doom, Noise, montes de Experimentalismo e uma piscadela de olho ao Drone, tudo enrolado numa amálgama sonora, dividida em seis temas,  que não nos agarra, nem por breves instantes; pelo contrário! Não há fio condutor, dando a sensação que estamos perante uma manta de retalhos onde tudo foi unido à pressão. Há uma faceta um tanto ou quanto obscura a envolver estas músicas(!), mas mesmo isso não é suficiente para atenuar o que repetidas audições constataram: um trabalho que não vai ficar para a história.
Quem quiser testemunhar o escrito, pode ouvir os temas ou downloadar no link que segue. (7/20)

English:
Dissonant and chaotic, in other words, no tip for where to get this ”Black Cassette”! Indeed, the expression 'DIY' makes perfect sense here. There's Doom, Noise, lots of experimentation and a wink to Drone, all wrapped in a sonic amalgam, divided into six themes, that do not grab us, on the contrary! No thread, giving the impression that this is a patchwork where everything was attached to the pressure. There is one facet of a somewhat obscure to involve these songs (!), But even that is not enough to mitigate the hearings found that repeated: a job that will not go down in history.
Who wants to witness the writing, you can listen or download the themes on the link that follows. (7/20)



segunda-feira, 13 de junho de 2011

Before The Rain - Frail (2011)

A julgar pelas cores da capa, pela sua imagem e título do álbum, os mais incautos terão uma valente surpresa quando tomarem contacto com os sons deste "Frail". Para os mais acostumados a estas andanças pelo Metal, a capa deste segundo álbum demonstra uma clara fuga ao standardizado e buscar, legitimamente, algum destaque. No entanto, não será somente pela capa/artwork que esta banda portuguesa andará "na boca do povo"; a sua música, ou seja, o principal leitmotiv. Merecido, diga-se, desde já.
Desde que saiu "... One Day Less", em 2007, os Before The Rain evidenciaram-se como uma das propostas mais consistentes na corrente do Doom/Death Metal que se faz em solo nacional e trilharam o seu percurso, mais ou menos conturbado, mas sempre seguro dos objectivos que a banda tinha a caminho desta nova etapa.
Olhando para este novo registo, podemos dizer que soa um pouco estranho, na medida em que não parece o sucessor de "... One Day Less", dando a clara ideia que falta um álbum ali pelo meio que nos prepare para esta nova proposta. As diferenças são bem notórias, o crescimento da banda foi muito significativo, a abordagem aos temas ganhou novos contornos e os Before The Rain de hoje já não se parecem com os de há 4 anos; estão bastante mais maduros, coesos, e o resultado disso mesmo são mais meia-dúzia de portentos que nos têm deixado a cabeça à roda, onde a fúria se imiscui de uma forma tão natural com passagens tão simples e doces, onde as palavras entoadas, cantadas e rugidas convivem graciosamente à medida que os minutos passam e tudo encaixa naturalmente. Quem já teve a oportunidade de apreciar estes novos temas ao vivo, não negará a força, poder e envolvência que os mesmos ganham.  Aqui, parece que se fundem os Katatonia, os My Dying Bride e os Anathema (na sua versão mais próxima do rock atmosférico) e não raras vezes estas bandas assomam ao nosso pensamento, na medida em que podiam muito estar a tocar qualquer um destes temas. Mas, estranhamente, as influências aqui soam muito bem.
Estão diferentes estes Before The Rain, musicalmente e no seu line up. Uma remodelação profunda na banda, com novos elementos, de entre os quais se destaca Gary Griffith (dos norte-americanos Morgion), e algumas novas abordagens musicais fazem desta banda e deste "Frail" um caso sério. Frágil, débil, delicado? Sim, tudo isso mas, acima de tudo, poderoso. (17.4/20)

English:
Judging for the colors of the cover, the image included and the title of the album, the most rash will have a brave surprise when they take contact with the sounds of this "Frail". For the ones most accustomed to these surprises in the Metal scene, the cover of this second album demonstrates a clear escape to a standard view that we have of Metal cover albums and to look, legitimately, for some distinction. However, it will not be only for the cover/artwork that this Portuguese band will be " in the mouth of the people "; its music, in other words, the principal leitmotiv. Deserved, of this you can be sure..
Since it went out "... One Day Less ", in 2007, Before The Rain showed up like one of the most solid proposals in the current line of Doom/Death Metal that is done in portuguese ground and trod his distance, more or less troubled, but always secure of the objectives that the band had the way of this new stage.
Looking to this new record, we can say that it sounds a little bit strange, as he does not seem the successor of "... One Day Less ", giving the clear idea that is lacking an album round about the way that prepares us for this new proposal. The differences are quite well-known, the growth of the band was very significant, the approach to the songs gained new outlines and the Before The Rain of today is already not similar with the ones 4 years ago; they are more ripe enough, cohesive, and the result is more stocking-dozen of wonders that have been leaving us the head to the wheel, where the fury interferes in such a natural form with so simple and sweet passages, where the chanted, sung and roared words coexist graciously while the minutes go by and everything fits naturally. The ones who already had the opportunity to appreciate these new songs live, will not deny the strength, power and involvement they gain in live acts. Here, seem that the Katatonia, My Dying Bride and Anathema (in his nearest version of the atmospheric rock) merge and not seldom these bands climb to the top of our thought, in so far as they could be touching very much any one of these compositions. But, strangely, the influences here sound very well.
This Before The Rain are different, musically and in its lineup. A deep remodelling in the band, with new elements, of which Gary Griffith is outstanding (of the North Americans Morgion), and some new musical approaches do from this band and from this "Frail" a serious case. Fragile, weak, delicate? Yes, completely that but, above all, mighty. (17.4/20)