quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Katabatic - Heavy Water


Quem dá de caras - ou de ouvidos - com o primeiro álbum dos portugueses Katabatic, nem se apercebe que a banda votou-se ao silêncio nestes últimos anos, após o lançamento do EP 'Vago', dada a entrada em media-res com 'Wonder-Room', um tema pujante, com uma grande cadência rítmica e apostado em segurar o ouvinte durante os 45 minutos seguintes, administrando-lhe uma bela dose de post-rock, bem na veia de uns Explosions In The Sky que se encontram no mesmo estúdio com os Mono e os Isis e decidem fazer umas jams.
Pois bem, o quarteto lisboeta explora todas estas vertentes e mescla-as de forma bem interessante e dá-lhe um cunho pessoal, que pode bem vir a ser o ponto diferenciador no futuro entre os seus trabalhos e os de variadíssimas bandas medianas que pululam por esse mundo fora.
O nível do álbum mantém-se bastante constante, interessante, sem temas que ganhem muito destaque e sem fillers, dando a impressão de existir uma inter-ligação, um fio condutor comum a todos os temas, o que acaba por ser uma característica dos registos deste tipo.
'Heavy Water' aposta um pouco mais em temas fortes, com guitarras mais 'à frente', apoiadas numa secção rítmica segura e que responde à exigência destas composições. Estes momentos são contrabalançados por passagens mais calmas, onde pontificam as guitarras limpas, capazes de nos transportar em pequenas viagens através das suas notas delicadas, de crescendos, de alguns efeitos que aqui e ali polvilham esta trama; e nela nos deixamos enredar até que 'Abandónica' chega ao fim e nos pousa no chão ao mesmo tempo que nos convida para a «urgência» de 'Wonder-Room'.
Válido, muito válido e para degustar durante longo tempo. (14.8/20)

Tracklist:

01. Wonder-Room
02. Light Hexagons
03. Morsa
04. Anova
05. Heavy Water
06. Girlaxia
07. Abandónica




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Evoken - Atra Mors

Longa se tornava a espera. Longa, no sentido temporal. Longa, na expectativa do passo seguinte a 'A Caress Of The Void'. Longa, pela ausência de um dos pilares do movimento funeral doom.
A espera chegou ao fim. Resultado: oito temas. Oito temas? Não. Oito momentos nos deixam de queixo caído logo à primeira audição, mostrando uns Evoken de volta à excelente forma - a enorme qualidade dos seus álbuns nunca se discutiu, embora 'A Caress Of The Void' não tenha conseguido na plenitude o fulgor de 'Quietus' ou 'Antithesis Of Light' -, levando-nos, desde já, a admitir que este quinto longa-duração entrará directamente para o grupo de clássicos da banda e de todo o movimento musical no qual se inserem. Para que as dúvidas se dissipem - ou certezas se confirmem -, escutem 'Grim Eloquence' e, a fechar, 'Into Aphotic Devastation' e poderão verificar que a coesão, qualidade de composição e sentido de melodia continuam imaculadas, sem perder uma ponta da agrura e aspereza presente em registos anteriores, sem comprometer um milímetro que seja a identidade do quinteto de Nova Jérsia. E não ficam por terrenos conhecidos; nunca foi esse o seu apanágio. Aqui, regista-se mais um passo em frente, com as teclas a ganharem mais força, contribuindo em grande parte para aquele ambiente melancólico e, ao mesmo tempo, extremamente depressivo e pútrido que a banda tão bem consegue concretizar. Os temas continuam a encaixar muito bem com a voz de John Paradizo, nos seus diferentes registos, que mais uma vez faz-se acompanhar por um punhado de textos bem negros, onde a vida rasteja no mais vil caminho lamacento.
Em suma, quem já sabe 'do que a casa gasta', ficará muito feliz com Atra Mors e para quem este é o primeiro contacto com os Evoken acreditamos que andará azoado das ideias bastante tempo. Por aqui, um dos lugares do pódio já deve estar atribuído.
Ah!..., e a Profound Lore não poderia ter melhor álbum para comemorar o seu 100º lançamento. (18.4/20)


Tracklist:

01. Atra Mors
02. Descent Into Chaotic Dream
03. A Tenebrous Vision
04. Grim Eloquence
05. An Extrinsic Divide
06. Requies Aeterna
07. The Unechoing Dread
08. Into Aphotic Devastation






Link: http://www.facebook.com/pages/Evoken-Official/91505789372?ref=ts

Fatum Elisum - Homo Nihilis (2011)


Dois anos após a promissora demo que mostrou os Fatum Elisum ao mundo, eis que a banda de Rouen lança o seu primeiro disco, através da britânica Aesthetic Death.
Ao longo destes 5 temas, ou melhor um intro e quatro longos temas, o que ressalta à primeira vista é a inclusão de algumas mudanças do ponto de vista musical, fugindo da toada funérea, extremamente densa e claustrofóbica, com Ende a deixar a sua marca, num registo a roçar o desespero. Neste trabalho, as vocalizações são um pouco mais diversas, mas sobressaem os registos limpos, quase declamatórios, removendo para segundo plano essa agonizante libertação de palavras e urros selváticos, esparsamente presentes em ‘The Twilight Prophet’, por exemplo.
Em ‘Homo Nihilis’, apesar do ambiente não se encontrar menos desanuviado, a abordagem dos temas vira-se para uma toada mais doom/death, bastante cadenciada, marcada por linhas de guitarra simples e um ritmo forte de bateria, servindo de base para as longas declamações de Ende, entre o inglês e o francês, com esporádicas passagens pelo latim e grego, que nas vocalizações limpas conta com os préstimos de Asgeirr, que também acumula funções no baixo. No meio destas alterações, no nevoeiro dos temas, afloram reminiscências de Paradise Lost e My Dying Bride, principalmente ao nível da voz, e dos Reverend Bizarre na vertente sonora, sem esquecer os Evoken ou os Mourning Beloveth (nos seus trabalhos mais recentes).
Com excepção de 'Pulvis Et Umbra Sumus', uma curta introdução de um minuto, muito similar à presente na demo de estreia 'Fatum Elisum', todos os temas andam acima dos quinze minutos de duração, mas a simplicidade empregue nas composições mantêm estes exercícios interessantes do princípio ao fim, muito por culpa de um trabalho mais apurado entre guitarras acústicas e eléctricas, atingindo em alguns momentos algo de épico.
A produção é simples mas eficaz, dando coesão a um disco que, perante um trabalho menor, seria de muito mais difícil audição e qualquer receio inicial sobre o representante desaparece dentro de alguns minutos da primeira pista. 'Homo Nihilis' é um trabalho competente e consegue ter momentos pungentes, mas ainda falta algo que demonstre que o investimento total aqui mereceu inteiramente o seu resultado. (14.2/20)


English:


Two years after their promising demo that showed Fatum Elisum to the world, behold the band of Rouen releases his first album by Aesthetic Death, a British label.
Throughout these five tracks, or rather an intro and four themes, which highlights at first glance is the inclusion of some changes in terms of musical, fleeing the funereal tune, extremely dense and claustrophobic, with Ende to make his mark in a register to skim despair. In this work, the vocals are a bit more diverse, but excel records clean, almost declamatory, doing almost forget this agonizing release of words and savage yells, sparsely present in 'The Twilight Prophet', for example.
In Homo Nihilis', although the ambient is not less unclouded, dealing with the topic turns to a tune more doom/death, very rhythmic, marked by simple guitar lines and a strong rhythm of drums, providing the basis for the long declamations of Ende, between English and French and occasional passages in Latin and Greek, which features clean vocals on the services of Asgeirr, which also accumulates the bass functions. In the centre of these changes, in the fog of topics, flourish reminiscent of Paradise Lost and My Dying Bride, mainly in terms of voice, and the sound looks like Reverend Bizarre in part, without forgetting Evoken or Mourning Beloveth (in their more recent work).
With the exception of 'Pulvis Umbra Et Sumus', a short introduction of a minute, very similar to the demo debut 'Fatum Elisum', all songs walking up the fifteen minutes long, but the simplicity employed in the compositions hold these exercises interesting from beginning to end, by the fault of a much finer work between acoustic and electric guitars, at times reaching something epic.
The production is simple but effective, giving cohesion to a disc, before a work of lesser quality would be much harder to be heard and any initial fear about the representative disappears within a few minutes of the first track. Homo Nihilis' is a competent job and manages to have emotional moments, but still lack something that shows that total investment here fully deserved their result. (14.2/20)


Tracklist:

01. Pulvis Et Umbra
02. The Pursuit Of Sadness
03. The Twilight Prophet
04. Homo Nihilis
05. East Of Eden



Temple Of Doom Metal - III Anos de Degredoom




Volvido mais um ano, cá estamos para assinalar esta nefasta data. Ao longo destes três anos muita coisa aconteceu, boa e menos positiva, crescemos, às vezes um pouco mais do que estávamos à espera, decidimos refrear um pouco esse mesmo crescimento e medir a ambição. Mas sempre nos esforçamos por tentar manter as coisas frescas, ou pouco podres - conforme os gostos - e, acima de tudo, tentar dar um pouco mais de visibilidade a este género musical com especial enfoque nos projectos nacionais emergentes e afirmados no panorama metálico.
Perídos houve de letargia, torpor, indefinição e quase ausência, mas houve sempre algo que nos impeliu para continuar este longo rosário, dando sentido ao templo.
Por isso mesmo, aqui estamos hoje, com renovados votos e esperanças, mas acima de tudo para expressar que as portas do Temple Of Doom Metal continuarão a estar abertas, porque este lento doom ainda tem muito para vos oferecer.
E por que os últimos são sempre os primeiros, não poderíamos deixar este dia passar sem endereçarmos uma palavra a quem nos apoia, ajuda, lê, critica e ignora: muito obrigado por estarem aí! Este projecto ainda tem pernas para andar e crescer.
A todos os que têm participado, através das variadíssimas formas na construção deste espaço e ao grupo que tem sido a alma do templo ao longo destes três anos de actividade, o nosso sincero muito obrigado.

Temple Of Doom Metal
Arrasta-te, lúgubre; a desilusão invade-te...

sábado, 28 de julho de 2012

Essenz - Mundus Numen

Os berlineneses Essenz regressam aos discos, três anos depois de um muito bem recebido 'KVIITIIVZ - Beschwörung des Unaussprechlichen', onde a par do black e doom imperantes, também havia espaço para alguma experimentação e o que mais desse na cabeça do trio, resultando num caldo bastante interessante e, ao mesmo tempo, indefinível. Pois bem, esperaríamos por novos desenvolvimentos. Estes, surgem pela mão de 'Mundus Numen'; seis temas que mostram evolução na abordagem aos temas, na sua concepção, em que tudo está bem definido e nada parece estar a mais. Mas a densa névoa negra que abraçava 'KVIITIIVZ...' desde os primeiros acordes, aqui surge ao segundo tema, 'Sea Of Light - Plemora'. 'Extinguish Shapes - Innermediate' abre o disco e causa surpresa e deixa-nos a pensar no que é que os The Gates Of Slumber andam por aqui a fazer. Claro está que pouco depois a agulha toma o sentido já conhecido e mostra-nos os ingredientes do passado, mas mais refinados. E daqui até à final exalação de 'To The Mania - Mania' entramos numa constante absorção dos sons que vão brotando e da dinâmica que estes temas apresentam com o crescendo das audições.
Longe de estar compartimentado do ponto de vista estilístico, consegue-se precepcionar uma maior propensão para a vertente do black metal nos primeiros temas, sendo os restantes mais votados aos andamentos mais arrastados do doom. Após esta visão simplista e mergulhando mais fundo em cada um deles, constata-se que as barreiras são tão ténues e fuidas que não faz sentido nenhum ver aqui ou ali este estilo ou outro. Importa é salientar que a música dos Essenz funciona como um todo, do princípio ao fim, do primeiro ao último acorde e quando as coisas são assim, aliadas a uma capacidade de conseguirem manter as coisas frescas e interessantes, corre-se o risco de ter um grande disco entre mãos e levar o escriba a dar voltas ao miolo para não cair num discurso açucarado e recorrente, com falta de adjectivos para o qualificar. (15.8/20)

Tracklist:

01. Extinguish Shapes: Innermediate
02. Seæ Of light: Pleroma
03. Extricate Spirits: Amor
04. Observed By Spectres: Paranoia
05. Observing Spectres: Schizophrenia
06. To The Bone - Mania



terça-feira, 24 de julho de 2012

Bong - Mana-Yood-Sushai (2012)

Aquando do lançamento de 'Beyond Ancient Space', no ano passado, referimos que o duo de Newcastle teria puxado ao limite a fórmula que tornou a sua música única e que esse era um passo que poderia ser, se não perigoso, pelo menos prejudicial, dado o possível beco sem saída em que se poderiam encontrar no futuro. Pois bem, a resposta chega-nos através deste 'Mana-Yood-Sushai', mais dois exercícios, longos, lentos, mas com o condão de transportarem, a par de um obscurantismo mais cativante que no seu predecessor, ideias bem definidas - se bem que repetidas à exaustão e com poucas variações, continuando a ser a maior pecha do seu trabalho -, eliminando 'gorduras' que nada acrescentavam aos temas - embora 'Dreams Of Mana-Yood-Sushai' ainda contenha alguns momentos dispensáveis e até mesmo entediantes, contrastando com 'Trees, Grass And Stones', fluindo do início até ao fim como se de um tema de meia-dúzia de minutos se tratasse.
O ambiente é bastante similar ao que já vem sendo hábito nos trabalhos desta banda, onde os tons enegrecidos picam o olho a alguns trejeitos orientais onde, mais uma vez, Ben Freeth com a sua cítara e shahi baaja marca o toque distintivo dos Bong. Dave Terry, parece continuar completamente em estado de transe, emanando as suas vocalizações, que mais parecem invocar entes de outras dimensões, mas que, ao mesmo tempo, parecem imiscuir-se no próprio som, soando, às vezes, longínquas e, depois, bem próximas.
Ultrapassando pouco mais que 45 minutos, bem mais curto que 'Beyond...', eis um bom trabalho que os conhecedores e apreciadores irão deixar rolar por bastante tempo. (13.5/20)


English:

At the launch of 'Beyond Ancient Space', last year, referring to the duo of Newcastle would have pulled out the formula that made his music unique and that this was a step that could be, if not dangerous, least harmful, given the possible deadlock in which they could find in the future. Well, the answer comes to us through this 'Mana-Yood-Sushai' two more exercises, long, slow, but with the power to carry, along with an obscurity more captivating than in its predecessor, well-defined ideas - if although the exhaustion and repeated with minor variations, continues to be the biggest blemish of his work - eliminating 'fat' that added nothing to the issues - although 'Dreams Of Mana-Yood-Sushai' still contains a few moments dispensable and even boring , contrasting with 'Trees, Grass and Stones', flowing from start to finish as a matter of half a dozen minutes they were.
The atmosphere is very similar to what has been customary in works of this band, where shades blackened eye poke a few Eastern quirks where, once again, Ben Freeth with his zither and shahi baaja marks the distinctive touch of Bong. Dave Terry, still seems completely in a trance state, emanating from their vocalizations, which seem to rely more entities from other dimensions, but at the same time, seem to meddle in their own sound, sounding, sometimes distant, and then very close.
Exceeding little more than 45 minutes, much shorter than 'Beyond Ancient Space', is a fine work that connoisseurs and lovers will let go for quite some time. (13.5/20) 

 
 
Tracklist: 01 - 'Dreams of Mana-Yood-Sushai' / 02 - 'Trees, Grass and Stones'



sexta-feira, 13 de julho de 2012

Sinistro - Sinistro

O ano ainda vai a meio e a julgar pela colheita podemos dizer que é de assinalável qualidade, mais uma vez e pauta-se igualmente pela diversidade estilística, demonstrando que o panorama metálico português está de boa saúde e recomenda-se.
De entre um fervilhar de projectos e bandas que todos os meses vão assomando com novos trabalhos intra-muros, um grande destaque vai para os Sinistro - confesse-se que esta denominação, só por si, já é merecedora de curiosidade -, que fazem a sua aparição, auto-intitulada, num registo polifacetado, aglutinador de tantas referências que o seu enquadramento estilístico acaba por não ser nada fácil. Por aqui, há devaneios floydianos, momentos contemplativos com um fundo sonoro na linha do ambiental, há post-metal pré-'Oceanic' - com um toquezinho a Mono aqui e ali - e o bolo parece ficar completo, unindo estes ingredientes todos, com uma boa dose de doom metal. E, o mais interessante é que tudo faz sentido ao longo destes oito temas; as peças vão encaixando à medida que os minutos vão passando e tudo flui tão harmoniosamente que, terminado o som, fica uma sensação de desconforto, impelindo-nos a carregar não só no play, mas no repeat também, para uma prolongada viagem ao fundo destes temas. Somos absorvidos de forma subtil e tão generosa para o meio deste cenário - ou conjunto de cenários encadeados -, que desde cedo nos sentimos parte desta banda-sonora em que cada um de nós é o compilador de imagens e as coloca pela ordem que nos aprouver; e continuarão a fazer sentido, mesmo assim.
Num trabalho que funciona como um todo, é difícil destacar este ou aquele tema, mas 'O Acidente e a Euforia' tenta sintetizar, em pouco mais de quatro minutos, a fórmula aqui exposta - neste caso, com o contributo de Gabriel Coutinho -, 'O Dia Depois do Meu Funeral' que anda ali a deixar-se embeber pelo formato canção e, no derradeiro assomo, 'A Ira', a catarse musicada em onze minutos, onde um conjunto de teclados soberbo eleva em muito a qualidade deste tema e que conta, ainda, com a participação de Tó Pica, que efectua um belo solo já perto do final.
Desassombradamente, os Sinistro mostram-se sob uma paleta de cores que não nos deixaram indiferentes, restando saber se as mesmas têm o mesmo poder ao vivo e se mantêm a mesma vivacidade em momentos futuros. Se assim for, ainda iremos ouvir falar, e muito, deste misterioso trio. (15/20)

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Grime - Grime (2012)

Os Grime, são um quarteto que nos chega de Trieste, na Itália e praticam uma sonoridade que tanto deve aos Black Sabbath como aos Eyehategod ou Sourvein, só para citar os casos mais imediatos; ou seja, para os mais distraídos, informa-se que navegam pelas águas bem lodosas do sludge/doom metal na sua vertente mais crua e suja, embora mantenham sempre à vista a melodia, garantindo desta forma o equilíbrio necessário, que lhes granjeou a atenção da britânica Mordgrimm, através da qual veêm lançado este seu trabalho de estreia - embora, desde meados do ano passado, pudesse ser escutado e comprado em formato digital, via bandcamp.
É certo que a fórmula sludge/doom já conheceu melhores dias, há muito deixou de ser novidade, encontra-se num patamar de sobrexposição e já tem a sua colheita de trabalhos icónicos, digamos, mas não podemos deixar de apreciar um bom disco e dizê-lo condicionados pelo anteriormente referido. Se trazem algo de novo ou se irão deixar a sua marca na história da música, isso já será outra conversa. E este registo de estreia dos Grime acaba por ser um bom exemplo disso mesmo: em pouco mais de meia hora, condensam riffs duros e sujos com ritmos lentos, a que se junta uma vocalização tipicamente do género. Temas como 'Self-Contempt' ou 'Charon' evidenciam qualidade, mostram bem as linhas com que a banda se cose, conseguindo agarrar o ouvinte e dar-lhe uns valentes abanões, mas no final fica um ligeiro travo a pouco, que faltava ali pelo meio algo que garantisse uma outra dimensão a este conjunto de temas.
Longe de ser um trabalho medíocre, este debut apesar de não trazer novidades proporciona bons momentos durante a sua audição, mas espera-se, para breve segundo a banda, por algo com mais substância de modo a garantir um longo tempo na playlist e a provocar-nos uma feliz dor de cabeça. (12.2/20)

Tracklist: 
01 - Self-Contempt / 02 - The Journey / 03 - Charon / 04 - Chasm / 05 - Born Sick / 06 - Wife-Beater



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segunda-feira, 25 de junho de 2012

Ea - Ea (2012)

É com um piano sorumbático, onde as notas soltas ecoam placidamente, que inicia a nova proposta desta entidade obscura e misteriosa que dá pelo nome de Ea. Sob esse piano, um ruído surdo enegrece o cenário, desde esses primeiros segundos, acabando tudo por eclodir numa explosão de guitarras que fazem chorar as pedras da calçada, lancinantes, ritmos fortes mas lentos e teclados que mais não são do que a voz de uma morte qualquer que percorre, na sua negra altivez, um cenário desolador, em busca de um derradeiro sopro de vida.
Ao longo deste tema, com mais de 47 minutos, o projecto não se desvia um milímetro da sua matriz funérea e durante a sua audição, que nunca chega a tornar-se cansativa ou desinteressante, sendo possível verificar um continuum dos elementos que pudemos testemunhar ao longo dos três primeiros trabalhos e, de certa forma, começaram a mostrar sinais de algum "cansaço" em 'Au Ellai'.
No entanto, neste trabalho homónimo, parece que houve algum rejuvenescimento a que não será alheia a abertura a alguns momentos mais desafiantes, conseguindo dar uma certa aura de grandiosidade a este 'Ea'. Após o referido prólogo, vamos de encontro a um dos momentos mais belos e marcantes, proporcionado por um "coro" envolto em teclados que nos remetem para uma qualquer celebração, atingindo níveis épicos. Após esse primeiro clímax, digamos, mergulhamos num longo período sonoramente típico deste projecto, embora sempre num nível interessante, onde se conjugam habilmente o peso do funeral doom, e as passagens mais atmosféricas que são imagem de marca dos Ea.
Esta situação só volta a mudar à entrada para os últimos 23 minutos, onde somos sacudidos dessa letargia, por uma toada quasi death metal, regressando minutos depois ao normal modus operandi, desta feita com direito a vocalizações e a um solo lá mais para a frente,  onde as teclas assumem um plano de destaque conduzindo-nos para o final, num embalo triste.
Já longe do impacto que teve 'Ea Taesse', este quarto álbum irá marcar pontos pelo facto de ser o mais equilibrado, o mais ambicioso, que mais declaradamente criou espaço para novas experimentações e, curiosamente, é o primeiro que não obedece a um conceito ou trilogia. (15.4/20)

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Process Of Guilt - FÆMIN (2012)


Poucas começam a ser as palavras para podermos falar, sem cairmos em lugares-comuns e redundâncias, do trabalho que os Process Of Guilt têm vindo a desenvolver ao de 10 anos.
Desde a primeira amostra, com 'Portraits Of Regret', que a subida da montanha tem sido feita a pulso, mas com uma regularidade e qualidade assinaláveis culminando com 'Erosion', lançado há três anos - não contando com o trabalho de remisturas 'The Circle' do ano passado -, um trabalho maior que deixou muita boa gente com a cabeça às voltas, no sentido figurado e literalmente, durante bastante tempo.
Que esperar, então? Um doloroso e sofrido disco? Algo mais «descontraído»? Repetir a dose?
A resposta pode ser ouvida em 'FÆMIN', um novo passo em frente da carreira deste colectivo. Dividido em cinco temas, que se interligam, apesar de não se encontrarem subjacentes a um conceito, como em 'Erosion', comungam harmoniosamente da mistura de elementos pesados, lentos e agressivos com passagens mais calmas, mas igualmente densas, criando uma atmosfera negra, suja e crua; tudo isto condensado em temas um pouco mais curtos do que é seu apanágio, mas que reflectem bem a evolução do trabalho da banda, sabendo disferir os seus golpes nos momentos certos, sem o risco de cair em momentos que soem a filler.
'Empire' abre as hostilidades e num crescendo que vai tomando conta de nós, onde por momentos os Neurosis povoaram os nossos pensamentos, eclode, na parte final, naquele que é um preâmbulo para 'Blinfold'. A esta altura, já estamos à toa, sedentos e deliciados com o rumo das guitarras e ritmos em assomos quase tribais, que sustentam toda a máquina. E aqui está um dos seus pontos de destaque. Regista-se, também, uma maior diversidade vocal, mais visceral, que se vai estendo pelos restantes temas, mostrando-se bem à altura desta muralha sonora, pontificada pelos solos de Nuno David, certeiros no seu timing e sem excessos de virtuosismo ou de necessidade de afirmar o que quer que seja.
Já na segunda metade do álbum, 'Cleanse' deixa-nos respirar um pouco, embalados no excelente trabalho de guitarras e baixo, que nos prepara para o tema-título, derradeiro, aglutinador e espelho da realidade musical discorrida. Imagem da banda, marca de um novo patamar, confirmando os Process Of Guilt, se alguém ainda tivesse algum assomo de dúvida, como uma das propostas mais valiosas que a música extrema portuguesa tem para oferecer.
E é com álbuns destes que se faz história, trilham-se caminhos e afirmam-se pergaminhos. (17.8/20)


Tracklist: 01 - Empire / 02 - Blindfold / 03 - Harvest / 04 - Cleanse / 05 - Fæmin